27/08/2004
Ano 8 - Número 383


 


Airo Zamoner
  


O amante da prima
 
 

Minha prima ficou escondida tanto tempo que estava pálida, macilenta, quando espiou para fora. Ela havia veraneado um bocado. Abusou, a sem-vergonha. Divertiu-se para valer e depois, exausta, hibernou quietinha, conformada, esperando...

Há pouco, eu a vi na espreita, com um ar maroto, o riso sedutor e a grinalda de flores de todos os tipos, cores e perfumes a emoldurar a cara de menina eterna. Cores, fazendo um contraste compensador com a pele branca, lisa, de textura acetinada, guardada que estava do Sol, protegida que ficou da chuva fria, do vento secante.

Já havia recebido alguns recados, não lembro se por carta ou pela Internet. Falava-me de seu retorno. Na verdade, estava louca para voltar. Mas, eu recebi as mensagens com desdém de apaixonado. Respondi que se conseguiu ficar assim, tanto tempo longe de mim, nem precisava estar se dando ao trabalho de me avisar dessa volta intempestiva, mas previsível. Aliás, disse eu, nem precisaria vir jamais. Poderia ficar lá mesmo, já que me abandonou por tanto tempo. Se passei o verão inteiro, o outono inteiro e o que é pior, se estou atravessando este inverno dos demônios, onde o frio sempre encontra malditas brechas para invadir-me, enregelando minha alma angustiada, por que haveria de não passar a vida toda assim... assim, sem ela?

Claro que eu disse isso, mas não era a verdade que habitava meus desejos. Eu a queria! Quem me conhece, viu que passei o verão inteiro, lamentando sua partida. Ainda gozando as delícias do Sol, esse arrogante que aparece quando quer, desaparece quando não quero, eu a vi se afastar, acenando feminina como ninguém, ardente como nenhuma outra. Depois, só me restou, mais uma vez, chorar sua partida...

Partida sem apelo! Apenas a mesma promessa rotineira de voltar um dia. Promessa vã de apaixonados de ocasião. E essa volta demorou tanto que me envelheceu mais um bocado enquanto me entreteve nesta caminhada insensata que teimo em fazer todo o santo dia, sem saber o destino. Mas afinal, sei que no fundo, a caminhada importa mais que o destino! E caminho, chorando por minha amante ingrata.
Atirado no emaranhado caótico da vida, na verdade eu nada fiz esse tempo todo senão esperá-la, com a aflição dos jovens impúberes e a ansiedade dos pecadores incestuosos.

E agora ela está aí, bem perto de mim, atirando desejos pelo olhar provocador. Adoro esse olhar que ela me oferece, sorrindo com aqueles olhinhos apertados, a expulsar doçuras... Entretanto, eu simulo mágoa profunda, fecho minha cara, finjo mau humor. Afinal, tenho todas as razões do mundo. Não se trata assim as pessoas! Menos ainda os amantes. Mas ela é assim mesmo. Quando estamos entrelaçados, naquele abraço lascivo que parece infindo, trocando ternuras e calores que sua presença e só sua presença permite, ela se levanta bruscamente, intempestivamente, se solta de meu carinho e diz que precisa ir embora porque o verão está chegando.

Já tentei segurá-la de tantas formas. Uma vez, agarrei-a pelas duas mãos, disposto a não deixá-la cumprir seu intento. No início, ela fez uma força incrível, mas eu fui mais forte. Não a larguei! Assim ficamos por alguns segundos. Já estava cantando vitória, achando que ela não me abandonaria naquele verão. Ledo engano! Ela foi se tornando transparente. O sorriso dela foi aumentando, mas sua fisionomia foi se dissipando no ar e ela desapareceu de minhas mãos, me deixando boquiaberto, derrotado, solitário.

Não resisto a esse sorriso primeiro que ela me dá, cada vez que prenuncia sua volta. Esqueço todas as amarguras e as tristezas que me causa quando parte. Meu único desejo é sorvê-la degustando seus encantos. Ela é assim, quando está comigo na solidão das quatro paredes de nosso jardim. Ela se entrega como se eu fosse o único e depois murmura, num cochicho sensual em meus ouvidos, que não existe só para mim. Voltou, mas voltou para muitos outros amantes, que sempre chegará a hora de partir e balbucia alguma coisa sobre o verão.

Aí eu suplico, sempre suplico a mesma coisa, e ela sempre responde com o mesmo sorriso que me aquece as entranhas e se cala. Eu insisto, sempre e inutilmente insisto:

– Fique comigo pra sempre desta vez, primavera!



(27 de agosto/2004)
CooJornal no 383


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br