18/09/2004
Ano 8 - Número 386

- A amante do presidente
- A bússola de Ludovico
- A caneta do presidente
- A chegada de Xenik
- A descoberta de Lauro
- A esperança e o lixo
- A fuga de Lúcio
- A história de Joana
- A luz azul de nossas orelhas
- A renúncia do pinheiro
- A secreta paixão de Noêmia
- A suculenta índia apaixonada
- A surpresa de Marieta
- A tentação de lavar as mãos
- A vitrine de Paola
- Ainda fervem sonhos
- Aldrava
- Alguém viu Zé Pedro?
- Alô! Quem fala?
- Amor platônico
- As lágrimas de Dominique
- Cine Luz, o incêndio
- Claudine
- Conversa entre ministros
- Coração em pânico
- Dê um beijo em Ariela
- Eustáquio, o covarde
- Graças a Deus
- Guita é diferente
- Isifânia e o homem nu
- Lupiano, amigos e pedras
- Meu encontro com Nhanga
- Não queria ter visto
- O amante da prima
- O amor de Godofredo
- O armazém do Baldo
- O gene da honestidade
- O Honório, quem diria?
- O menino e os ipês
- O mergulho
- O motim
- O predestinado
- O presidente me irritou
- O que aconteceu com Bonifácio?
- O que há além do fosso?
- O que você está fazendo aí?
- O recado
- O último dia de um soberano
- O varal de Dona Glena
- Onde está D. Ventura?
- Os filhos de Laicos e Lagel
- Pensamento guerrilheiro
- Presidente, o sonho acabou!
- Precisamos de um grande inimigo!
- Quebre seus cristais
- Quem fez a Ponte do Patriarca?
- Quem paga a conta?
- Tá explicado!
- Um prato de livros
- Vai faltar luz hoje à noite
- Você também saberá a verdade
- Zorta, a ignorância

 


Airo Zamoner
  


Quem será?

 
 

Alfredo caminhava maltrapilho pelas ruas, abordando as pessoas, pedindo ajuda. Desenvolveu instintivamente essa coragem que a tantos constrange. Venceu a barreira da vergonha quando percebeu, na primeira e dura experiência, que conseguia convencer.

Contava histórias cheias de graças e desgraças. Histórias para comover. E comovia. Histórias para emocionar. E emocionava. O resultado positivo sempre acontecia: ajudavam-no. Alguns por pena, outros por má fé. Afinal, Alfredo prometia recompensar futuramente o abordado, caso sua providencial ajuda permitisse alcançar os desejos pessoais, travestidos de necessidades.

Tempos depois, Alfredo voltava, menos maltrapilho. Muitos cobravam suas recompensas. Ele sempre tinha, na ponta da língua, as desculpas para escapar da temida prestação de contas. Não só isso. Tinha a coragem escancarada para suplicar novas ajudas dos mesmos incautos e prosseguir em sua trajetória de pedinte bem sucedido.

Prometendo e traindo e novamente traindo e prometendo, Alfredo confiava na ignorância de seus benfeitores ingênuos. Sabia que podia enganá-los quantas vezes quisesse. Confiava tanto em sua retórica, em suas histórias, em seus olhares de falsa santidade que se sentia muito à vontade para ser infiel sem escrúpulos. Confiava ainda mais na certeza da profunda ignorância de seus protetores, construída intencionalmente nos planos infalíveis, engendrados no sereno das diabólicas e intermináveis madrugadas.

A cada nova aparição pelas ruas, mais bem vestido surgia. Mesmo assim, trazia para seu lado cada vez mais gente.

Numa tarde ensolarada, quando a Rua das Flores se enchia de povo, aconteceu o inesperado. Alfredo encontrou um concorrente. Animado pelo sucesso do outro, Aparício estava lá, abordando as mesmas pessoas que Alfredo pensava pertencerem definitivamente a ele, com histórias ainda mais intensas de graças e desgraças. Mais comoventes e emocionantes.

Confiante em suas qualidades de contador de histórias, subiu no caixote do vendedor de maçãs e chamou as gentes para perto. Com o auxílio de um megafone importado da China, alcançou aqueles que se acotovelavam por perto de Aparício. Aquilo só poderia mesmo acabar em tumulto. Um tumulto violento, execrável.

A polícia fez ouvidos moucos. Foi passear em outras plagas, esperando que tudo se acalmasse. E tudo se acalmou, depois que resolveram dividir os espaços. Nesta altura, Alfredo e Aparício formalizaram a inscrição de seus adeptos fiéis.

Mas Aparício obteve menos seguidores que Alfredo. Por isso, num momento de desespero, resolveu tornar pública a verdade. Alfredo, contudo, era muito bom para inventar histórias. Devolveu o dobro de denúncias.

Foi aí que a verdade e a mentira se misturaram para sempre.

Ali perto da Galeria Tijucas, num dia em que os pintores espalhavam sua arte, apareceu uma tal de Cendira. Mulher bonita, rosto angelical, exalando uma ingenuidade cativante, um perfume sensual, quase lascivo, chamou a atenção dos Alfredistas e dos Aparecistas. Exibia-se com uma provocação falsamente camuflada, deixando todos boquiabertos, saliva a escorrer pelos cantos rugosos da boca, embevecidos com seus gestos ensaiados, suas curvas propositadamente expostas, mas pudicamente cobertas. Durante seus discursos, lentos e provocantes, impedia seus ouvintes de pensar, embevecidos com sua maliciosa beleza.

O povo começou a oscilar de um lado para o outro, abobalhado. Ora ouvindo um, ora ouvindo o outro e a outra, na tonteira própria da condição marginal crônica. Na ignorância coletiva que proíbe o discernimento. Na educação manipulada, entregue nas mãos de ignorantes crassos ou de sabichões espertos para criar deliberadamente um povo submisso, feliz, patriótico.

Os institutos de pesquisa só falam do sobe-e-desce do prestígio de Alfredo, Aparício e Cendira. Sem falar de quase um batalhão inteiro de outros tantos que desejam ardentemente abocanhar um pouco para seu lado. Mas eles são pequenos, perto dos grandes e prestigiados que ponteiam a fila dos ídolos.

Lá na Boca Maldita, a pergunta que mais se faz todos os dias e todas as horas é sempre a mesma:

– Quem será o felizardo que assumirá a suprema felicidade de ser nosso novo prefeito?



(18 de setembro/2004)
CooJornal no 386


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br