25/09/2004
Ano 8 - Número 387
ARQUIVO AIRO ZAMONER
|
Airo Zamoner
Fotos, fatos e falas
|
 |
Neomásia estava louca para perdoar. Perdoando, tudo voltaria a ser
como antes. Retornaria a calma, a suavidade, a segurança, a rotina.
Mas precisaria um pedido.
O alívio das lágrimas de Neomásia, veio durante um diálogo nublado e
tenso, quando ela identificou, no emaranhado dos subterfúgios
costumeiros, que Gervásio pedia perdão.
Abraços e beijos coroaram o reatamento.
Nas incertas ravinas de suas histórias, persistia porém, vibrando
teimosa, a mentira deslavada de Gervásio. Descarado, infantil até, não
tivera habilidade e tempo para elaborar suas explicações. E o enredo
capenga ficou paraplégico.
O raciocínio privilegiado de Neomásia cotejava como ninguém, fatos,
fotos e falas. Memorizava fotos indelevelmente e sabia compará-las com
fatos, desvendando as falas em sua crueldade plena.
Aquela mentira, obviamente, não resistiu à primeira e superficial
análise. Gervásio ainda tentou se esquivar, com mais fatos e menos
lógica, menos planejamento e mais fotos, mais falas e menos verdades.
Neomásia explodiu em choro, descobrindo os inusitados labirintos do
caráter de seu amado. Era exatamente neste ponto que morava o
sofrimento.
Gervásio, imprudente, desnudou sem cuidados sua arquitetura pessoal em
elaboração. Uma arquitetura dúbia, involuntária, feita de complexos
sedimentados, revolta planejada, sonhos estapafúrdios, vinganças
salvadoras, raivas desconhecidas, inimigos imaginários. Tudo fora se
construindo ao longo de uma infância de ciúmes, uma adolescência mal
servida, e maturidade tardia.
Seus duvidosos complexos foram supridos com folga por uma Neomásia
atenta, amorosa, produtora imaginativa de incentivos e pronta para
suavizar os vales profundos daquela alma agitada, incompleta, faminta,
ansiosa para mostrar os mínimos espasmos de realizações, escancarados
como vitórias universais.
E agora, depois de tanto esforço, Neomásia constatara o esbulho da
verdade, pilar impoluto daquela relação de frágeis cristais. Aí
residia a dúvida. Aí se buscava o perdão como saneador definitivo de
um equilíbrio imaginário.
Separados, Neomásia queria perdoar e apagar o sofrimento. Gervásio via
no pedido de perdão a moeda de troca para voltar a ter Neomásia para
continuar a construção de seu arcabouço anímico. Mas nem ele sabia
exatamente porque Neomásia era sua mentora.
No meio deste jogo infeliz, o perdão se debatia entre pólos alheios à
sua natureza. Dançavam pelo éter os verdadeiros: arrependimento
sincero de um lado e de outro, desejo profundo da reconstrução. Mas
ali eles não estavam. No lugar do arrependimento, havia em Gervásio o
reconhecimento espertalhão da recompra dos carinhos de Neomásia. No
lugar do desejo profundo de reconstrução, havia em Neomásia o desejo
preguiçoso de recompor sua biografia de vidro frágil. O perdão virou a
moeda e ficou encurralado à espera do angustiante desfecho.
Nas madrugadas mal dormidas de Neomásia, fractais dançavam em
fantasias, apontando para as rachaduras insofismáveis do perdão
hipócrita.
Neomásia, cotejando fotos, fatos e falas, jogou as cobertas para o
alto, livrando-se dos calores hormonais. No banho frio da manhã,
lavou-se definitivamente de Gervásio.
(25 de setembro/2004)
CooJornal no 387
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
|
|