02/10/2004
Ano 8 - Número 388

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


BombaS nas eleições

 
 

Alguns acharam engraçado. Outros, consideraram verdadeiro vandalismo. Teve a turma do “isso não vai dar em nada” e aqueles que acharam uma revolução inédita.

O fato é que ninguém esperava aquela bomba, estourando em véspera de eleições e se confirmando na abertura das urnas. Mas estourou! E mudou os rumos de todos.

Foram os eleitores, a partir dos dezesseis anos, que iniciaram o processo inédito. Ou melhor, foi Marcelo que mobilizou os amigos do primeiro voto, depois que os corruptos, faceiros e seguros de si, corromperam a ética e corromperam também as virtudes. Pronto! O caminho estava livre para o infinito.

Cismado, Marcelo convenceu os amigos e um rastilho de pólvora saracoteou, queimando pelos cantões da pátria. O contágio foi avassalador. Nem o próprio Marcelo acreditava no que via.

Assustadas, as pesquisas, compradas ou não, detectaram o fenômeno. No início, duvidaram do que viram, mas depois temeram pelas conseqüências.

Os institutos resolveram camuflar suas descobertas, imitando avestruzes. Fingiram nada ver, mas viam claramente.

A pergunta mais cruel flutuava pelas escrivaninhas envergonhadas: como vender o tradicional otimismo aos encomendadores do serviço? Eles queriam números que pudessem mudar os fatos e mostrar pela televisão que estavam sempre na frente, que eram o cobiçado e olímpico ouro. Pagaram caro para não ter a realidade! Queriam é que a realidade se modificasse a partir dos desejos irresponsáveis de exímios trapaceiros profissionais. Como ajeitar a margem de erro para se salvar do vexame? Vá lá que se use margem de seis por cento. Até se pensou em dez por cento, mas isto forçaria a barra e ela poderia se romper. O jeito era mentir mais um pouco. Afinal, precisavam atender os clientes.

Sempre conseguiam que a pesquisa fosse aos poucos envergando a realidade. Sempre fora assim!

O eleitor, idiotizado por um ensino paraplégico, por uma televisão fornicante e vadia – muita vez, única diversão do abandonado pela cultura – e, principalmente, por governantes ardilosos em permanente liberdade incondicional, era vítima fácil, inocente, ingêua.

Depois? Ora! Depois a realidade vai se amoldando aos resultados forjados, e pronto! Isto sempre funciona, diziam eles. E funciona mesmo! Na boca de urna, os resultados confirmam a tendência fabricada. A reputação de todos se salva. Até a do instituto mais camelô da praça.

Mas não foi assim naquele maldito ano. Ninguém conseguiu explicar a mutação sócio-política que produziu a catástrofe.

O fato é que a apuração dos votos estava cristalina em frente a todos. E todos, mudos, não mexiam um músculo diante do grito estapafúrdio. Atônitos, ficaram petrificados, olhando para o irreversível, qual a bíblica mulher de Lot na velha Sodoma, renovada em todas as geografias de nosso século.

Cem por cento dos votos nulos! Não havia um único voto em branco. Não havia um único voto para qualquer candidato.

Marcelo era carregado pela multidão eufórica. Homenagem justa para aquele que iniciara a montagem da bomba. Iniciara a revolução inédita. A partir de Marcelo, as raposas voltariam para suas tocas, perderiam a liberdade incondicional. Finalmente, eles se desnudariam no mais absoluto nada. A verdade se restabeleceria.

Hoje, três de outubro, os magistrados, os juristas, os de saber notório, quebram a cabeça diante da realidade crua, atirada qual torta americanóide na cara indistinta de nossos justiçados políticos.

E então, ecoa pela casa de Marcelo o inesperado e frustrante grito:

– Marcelo! Acorde, meu filho! Levante! Tá na hora de votar. É seu primeiro voto. Já decidiu?




(02 de outubro/2004)
CooJornal no 388


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br