23/10/2004
Ano 8 - Número 391

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


Aurita


 
 

A viagem foi uma sucessão de prazeres inusitados. Depois de muitos anos, eu voltava à pequena cidade, derramada num entremeio de montanhas brincalhonas que insistiam em alternar verdes esquisitos, enquanto o carro saracoteava ladeira abaixo, pesquisando o caminho do vale.

Lá embaixo, o vasto rio antigo acalmava o saltitar das idéias. Deslizava calmaria. Verdadeiro arrastão de águas ainda límpidas, ainda livres da fúria desarvorada do incauto futuro.

Postei-me às margens e me quedei a examiná-lo, hipnotizado pelo desfile perfeito das trilhas marcadas pela brisa constante, ritmada.

A pedraria se espalhava pelas margens, qual multidão de admiradores, esperando a água passar, degustando a vida eternidade adentro. Agachei-me, acocorando-me para chegar mais perto de cada uma daquelas pedras. Apalpei seus contornos alisados por milênios de atrito paciente, moldando esculturas incompreensíveis, numa arte acima dos homens, para depois se ofertarem gratuitas à espera de algum toque, ou à espera de nada.

Mexi e remexi em torno, ouvindo o tilintar alucinante. Encontrei algumas transparentes. Cristal em pleno ensaio geral, que me arrancaram flechas de lembranças, antigas brincadeiras com Aurita.

Ali mesmo naquelas margens, naqueles tempos de sonhos, recolhíamos algumas pedras para batermos umas contra as outras e nos espantarmos com as faíscas brilhantes, com as fagulhas milagrosas saltando diante de olhos incrédulos. O som oco, vazio, cavernoso, de cada impacto, retribuía-nos o paciente esforço com luzes efêmeras, espantosas para nossas mentes ainda sem máculas, sem ciência, sem explicações a desmanchar prazeres.

Com os bolsos pesados de pedras, fugíamos da noite que se achegava e no escuro de nossos quartos, repetíamos as batidas. Estarrecidos, víamos as fagulhas se agigantarem, provocando relâmpagos tenebrosos, jogando nas paredes nossas silhuetas prodigiosas. Quais bruxos misteriosos, provocávamos a natureza e nos transformávamos em deuses onipotentes, dominando as forças negras do universo.

Deslizava ainda os dedos nas pedras, remexendo-as descompromissado, deixava ainda as imagens antigas remexerem no pensamento, quando a doce Aurita me interrompeu o delírio num solavanco. Pequena, corpo desenhado com esmero e arte. Vestido de flores miúdas, de um colorido apastelado, suave, estava ela em pé e tocou meu ombro. Seus cabelos negros, crespos, brilhantes. Sua pele branca, extremamente branca e seus olhos penetrantes, extremamente penetrantes. Seu sorriso cheio de mistérios, provocador, insinuante. Seus pensamentos inexpugnáveis, atirando desejos contidos, incontidos. Exatamente como a vira há anos sem conta.

Levantei-me desajeitado, sem acreditar que a companheira das diversões com as pedras no quarto escuro pudesse estar ali, novamente ao meu lado, tocando meu ombro. Trocamos abraços cheios de ternura e reminiscências. Por instantes, nossos olhos cruzaram silenciosos por todas as inocentes loucuras passadas.

As palavras, ditas no calendário mais profundo, retornaram todas e esvoaçaram fortes, malandras ao nosso redor. Os toques se repetiram, infantis, suaves, excitantes, indecifráveis.

Olhamos juntos para a cerca de montanhas. O verde ainda zombava com nossos olhos, tentando mostrar tons inéditos. Olhamos o rio eterno de nossa infância que parecia interromper seu fluxo antigo. As pedras reluzentes se reuniram sob nossos pés atônitos. Juntas, num movimento inesperado, se debateram espontaneamente, gerando os velhos sons ocos e as mesmas faíscas imensas no escuro de nosso mundo.

Atirei uma pedra, quebrando o silêncio do rio, numa despedida prematura da cidade. Subi até o mais alto morro e vasculhei em vão por Aurita.



(23 de outubro/2004)
CooJornal no 391
 


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br