13/11/2004
Ano 8 - Número 394
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Antônia e Anselmo
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Anselmo sempre foi arrogante e nunca deixou de ser ignorante. Mas
sempre teve um comportamento sedutor.
Antônia sempre foi humilde, mas nunca deixou de ser culta. E sempre
teve um comportamento exemplar.
Anselmo vive nas imediações da Vila Parolin, num quartinho cedido a
duras penas por sua avó paterna.
Antônia vive no bairro do Juvevê, num apartamento luxuoso que recém
acabou de pagar e sustenta sua avó materna numa suíte completa.
Anselmo gosta de fingir que é rico. Aplica tudo que consegue tirar da
avó, em roupas, carros ou barzinhos. Diz que a única forma de
aproveitar as oportunidades da vida é freqüentando bons lugares. E
para isso é preciso estar bem vestido.
Antônia gosta de se vestir bem, mas com parcimônia. Aplica seus
recursos extras em livros, cursos ou viagens. Diz que só assim poderá
aperfeiçoar sua cultura e avançar em sua profissão. E para isso é
preciso investir em conhecimento.
Antônia estudou muito. Formada, trabalha como consultora de empresas.
É bacharel em administração e mestre em gestão.
Anselmo não estudou. Não é formado. Não trabalha em lugar algum. É
somente vagabundo.
Assim mesmo, dia desses, os dois se cruzaram na Rua das Flores. Foi
num sábado, manhã pelo meio. Luzes espalhadas pelas frestas. Alegria
percorrendo as gentes descontraídas.
Para Antônia, foi um choque imenso sentir aqueles olhos verdes em
harmonia com um sorriso misterioso. E tremeu, ao vê-lo encarando-a
diretamente, acintosamente. Estavam muito próximos. Por um brevíssimo
instante, não conseguiu tirar os olhos daquela figura que
intempestivamente estava ali, sem licença, sem ordem, penetrando seu
interior inóspito. Fez um esforço, um gigantesco esforço, para
conseguir se recuperar. Olhou a banca da esquina, enquanto seu corpo
tremia e alternava frio e calor.
Para Anselmo, foi uma confusão embaraçosa aquela presença, despejando
sobre ele uma beleza paralisante. No primeiro segundo, seu instinto
conquistador barato e interesseiro armou a fisionomia para mais um
bote. Mas alguma coisa nova viajou por suas entranhas. Algo inédito
inaugurou-se na gama das cores de sua arrogância contumaz. Ficou sem
respirar. Só recobrou a malandragem nata quando Antônia desviou
bruscamente os olhos e afastou-se, enquanto ele e seu corpo oscilaram
entre quenturas e calafrios. Não conseguiu andar, não conseguiu se
mexer, não conseguiu pensar. Ele próprio abandonara a si mesmo.
Desmontando inteiramente seu perfil de donjuanista, ficou olhando
Antônia se afastar. Tinha um caminhar de bailarina, flutuante, sonoro.
Seus olhos fixaram-se na suave dança dos cabelos castanhos, levemente
ondulados, num movimento de adeus irremediável.
Quando Anselmo conseguiu mexer as pernas e esboçar uma caminhada, não
se reconhecia mais. Buscou freneticamente aquela mulher, até a
escuridão convencê-lo que a perdera para sempre.
Antônia virou a esquina da Alameda Dr. Muricy e em poucos segundos
desapareceu no estacionamento. Sentada ao volante, retocou a maquiagem
com dedos trêmulos, sem se reconhecer no minúsculo espelho. O rosto de
Anselmo não saía da frente de seus olhos. Desceu do carro e voltou
para a Rua das Flores. Vasculhou todos os cantos até a exaustão
definitiva. Desistiu desconsolada, convencida de que o perdera para
sempre.
(13 de novembro/2004)
CooJornal no 394
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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