20/11/2004
Ano 8 - Número 395
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Amor platônico II
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Que era velho, dava pra ver de longe. Mesmo assim, atraía todas as
atenções, sempre com seu brilho recente. E vivia sem soberba, sem
queixas.
Ela, visivelmente enamorada, lançava fiapos maltratados, num esforço
para entrelaçar-se em seus cadarços indiferentes. Impassível, ele se
concentrava em sua missão. Altivamente profissional, protegia pés
cansados, envelhecidos de andar, paralisados de sofrer, numa
fidelidade secular.
Orgulhoso, mal disfarçava sorrisos ufanosos aos que se aproximavam
ligeiros e ligeiros se afastavam, tomados por maldosa invídia,
maltratados pela curta existência, sem o brilho do carinho, sem a
altivez da missão, sem o orgulho dos satisfeitos.
Ela, flutuando leve sobre ele, nutria paixão desprendida, roçando-o
atrevida nas caminhadas que faziam juntos, até por obrigação do
ofício. Essa paixão ele curtia por dentro, numa falsa indiferença,
cochichada com a cumplicidade íntima de suas meias, construída apenas
para sentir-se nas alturas, embora vivesse ao rés do chão.
Quantas vezes sentiu vontade para sair de sua redoma, fazer subir seus
cadarços, revelando sem pudores a admiração que tinha pelos encantos
da amada secreta! Sua missão, contudo, era importante demais, não
permitia o enlevo e a desídia irresponsável.
Ela indicava saber disso. Desvendava segredos impossíveis, guardados
em sua timidez, acenava-os com aquele sorriso tentador a sugerir mil
amores, a despertar paixões incandescentes.
Muitas vezes sofreu consciência adentro, desconfiando veladamente de
uma provável traição, num ardiloso consórcio feminino para seduzi-lo
irremediavelmente a seus encantos.
As meias, numa forçada vida comum com ele, nunca mostraram interesse
maior. Conheciam sua alma como ninguém. Viviam sua promiscuidade mais
despudorada. Seu brilho exterior, portanto, não poderia seduzi-las. O
contato íntimo de seus corpos era friamente profissional, não
suscitava amores, nem prazeres.
Admirando-o perenemente lá das alturas, ela não conhecia seu âmago
mais profundo. Sonhava virtudes celestiais. Ansiava pelos arrepios do
espasmódico e fortuito contato a despertar o sonho de um convívio
eterno. Deliciava-se com a idéia do atrito perfeito. Derretia-se de
prazer imaginário. Desmanchava-se em sonhos lascivos.
Mas, algo vinha mudando em seu comportamento. Disfarçava cada vez
menos seus desejos e a resistência dele enfraquecia. Ontem, não o
perturbava o leve roçar que ela inventava. Hoje, aquela suavidade se
travestia de um carinho surpreendente, despertando volúpias
desconhecidas.
Foi nascendo uma paixão recíproca e ele já se atrapalhava com as
irregularidades do terreno. Machucava-se. Ouvia as reprimendas
ininteligíveis de seu dono. Sua consciência doía. Sua paixão
aumentava.
Como desejava penetrá-la, do mesmo modo como as meias o faziam ao
chegar da noite. Seu impiedoso dono largava-o num canto e elas
entravam pela calça, sumindo em seu regaço misterioso. Quantas vezes
tentou se agarrar àquelas traidoras e viajar junto, descobrindo os
mistérios que estavam transformando sua vida. Sua sina era adormecer
vendo-as caídas ao lado. Elas, sujas e mortas de cansaço, numa inércia
contagiante, a espera de novo dia.
E teve um dia. Quente e florido dia! Aconteceu o inusitado. Sentiu-se
desconfortável. Partira para sua missão, sozinho. Sem as meias!
Experiência nova e incômoda. Percebeu a falta que faziam em sua vida.
Ansiou inutilmente por elas. Lá de cima, a calça percebera tudo e
corroeu-se em ciúmes. Ele desejou o avizinhar da noite, imaginando que
essa ausência o levaria finalmente para a realização definitiva de
seus desejos. Ledo engano! Seu dono o retirara primeiro e os pés,
asquerosamente nus, entraram em seu lugar pela calça apaixonada,
frustrando-o desesperadamente.
Estranho o que estava acontecendo naquela noite singular. Sua calça
amada, amarrotada, dormitava sobre um vestido nunca visto. E não mais
duas, e sim quatro meias, duas delas de uma textura diáfana,
conversavam sem parar sobre amores impossíveis. Surpreso, dormiu ao
lado de outro par de sapatos femininos, totalmente desconhecido.
(20 de novembro/2004)
CooJornal no 395
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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