04/12/2004
Ano 8 - Número 397

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


Entre o azul e o vermelho


 

Ela aparece deslumbrante em minha frente, todos os dias. Nunca foi monótona ou cansativa. Cada novo minuto em sua companhia, uma nova surpresa. O engraçado é que nos primeiros anos de minha vida, ela já estava presente, exibida, presunçosa. Parecia dizer a cada instante:

– Viu só como eu sou? E você nem viu nada ainda. Tenho muitas coisas pra mostrar. Você vai se arrepiar. Vou agitar sua vida sem parar.

Aprendi a conviver com ela e até quando for possível não quero perder sua companhia. É realmente imprevisível. Assustadora em alguns momentos, suave e carinhosa em tantos outros. Enche o coração de felicidade, ao mesmo tempo em que prepara um bote de sofrimento atroz. No passado, ela foi muito camarada comigo. Só trazia alegria, felicidade, contentamento, bons momentos. Era muito colorida. Cheguei a pensar que seria sempre assim. Achava que a vida era boa demais. Daí vieram as primeiras revelações de seu verdadeiro caráter. As primeiras armadilhas. Finalmente, as primeiras amarguras. Mas elas se foram e imaginei que não voltariam. Estava enganado. Outras vieram mais ferozes. Praguejei contra ela, usando minhas forças todas. Suas respostas foram terríveis. Jamais alterou a voz. Sempre fria e embora próxima, parecia distante, alheia a meus padecimentos e alegrias. O vermelho começou a predominar em sua figura. Fui mais incisivo e agressivo em minhas queixas. Acusei-a com veemência. Esbravejei em altos brados. Falei de traição e maldades. Ela não perdia sua fleuma irritante. Até que um dia, dignou-se a falar em meus ouvidos, com aquele calor úmido de sua respiração tão próxima.

– Nunca traí você. Nunca prometi coisas boas.

– Como não? – retruquei irado – Como não? Você sempre me deu momentos alegres, felizes, desde minha infância. Agora só tem me mostrado horrores. Isso não é traição?

Ela nem se perturbou com minha raiva. Falou apenas que me esforçasse para lembrar exatamente o que ela havia dito no passado distante. Esforcei-me. Rebusquei em meus arquivos carcomidos e encontrei a frase exata:

– Viu só como eu sou? E você nem viu nada ainda. Tenho muitas coisas pra mostrar. Você vai se arrepiar. Vou agitar sua vida sem parar.

Fiquei petrificado por alguns instantes, revoltado com a verdade enlouquecedora. Sentia-me cansado de ver a morte prematura que essa dama perversa me mostra todos os dias. Cansado de ver o ódio espirrando dos olhos de absurdas crianças terroristas. Cansado com a indiferença de adolescentes, arma em punho, estourando os miolos de inocentes. Cansado de lembrar das guerras intermináveis e das mortes inúteis. Cansado da seqüência de decepções com nossos ídolos, líderes e amigos aproveitadores. Cansado das intrigas e das traições amargas. E ela me vem com uma suavidade falsa, a sussurrar como se dissesse palavras de amor, afirmando que não tem nada a ver com isso! Eu que tanto desejei vê-la com outra roupa, com outros olhos, colorida. Eu que desejei ver crianças sorrindo, fossem elas branquinhas, negrinhas, muçulmanas, cristãs ou budistas. Eu que desejei ver o abraço fraterno envolvendo esse planeta azul. Vejo-o tingido de vermelho. Bem que esse vermelho poderia ser paixão, mas é um ódio estúpido. Cansei-me dessa dama bandida, dessa dama vermelha, embora esteja consciente de que dela não poderei me livrar jamais.

Foi então que me deu um estalo repentino em algum canto desse cérebro complexo. Desses estalos que nos tiram de um sono hipnótico. Passei o dia tal e qual o velho Zumbi, vagando alhures, sem roteiro, sem projeto, sem rumos.

Daquele dia em diante lembrei e nem sei porque, mas lembrei de alguém que me falou de mansinho, até um tanto magoado:

– Você nunca prestou atenção em mim. Eu sempre ofereci aquilo que quisesse ter. Mas você só se preocupa com essa dama arrogante e traiçoeira. Agora se queixa? Por que não me faz mais companhia?

Senti certa mágoa em sua voz sussurrante. Certo ressentimento no tom das palavras. Percebi também que eu me descuidara. Não prestara atenção nele. Tanto é verdade que ao acordar não lembrava mais de suas ofertas, de suas conversas embriagadoras que tanto curti em minha infância perdida, de sua inebriante cor azul. Caí em profunda meditação, percebendo que havia misturado tudo em meus anos áureos. Ambos eram um só. A maturidade, chamando a velhice para perto, mostrando-me as diferenças profundas entre ambos. Tive que me render às evidências. Enchi-me de coragem e chamei a realidade para um canto e me penitenciei pelas injustiças que cometi com essa imprevisível dama vermelha. Depois, aguardei a noite chegar. Aguardei o sono tranqüilo e então chamei o sonho de volta e me reconciliei com a mansidão desse cavalheiro azul.


(04 de dezembro/2004)
CooJornal no 397


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br