04/12/2004
Ano 8 - Número 398
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
A
traição de Camila
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Apalpava-se nervosamente. Parecia tapar os furos de seu corpo por onde
vazava rindo, uma tristeza prisioneira. Um instante depois, rendeu-se
e parou. As mãos postas, enfiou-as entre as pernas fechadas. Os pés,
em ângulo obtuso. Bicos encostados, calcanhares afastados. O alvo de
seu olhar avermelhado era uma das pedras do calçamento, situada a uns
dois metros. Já me diverti muito na observação deste inesperado mundo
dos homens. Essa visão, contudo, incomodava minhas entranhas. Meus
olhos continuaram navegando pelos arredores. Minha mente rebelde não
concordou com o subterfúgio e migrou novamente para o sofrimento
vizinho. Numa hora destas, há um quê de incompetência humana, em luta
corporal aberta com a vontade anímica de agir.
– Aborrecido? – Fingi continuar o passeio dos olhos, falsamente
indiferentes, buscando manchetes interessantes pelo jornal
escancaradamente aberto.
Sacudiu rápida a cabeça de cima para baixo, uma só vez, sugerindo um
“sim” frenético sem tirar o olhar da pedra. Sem me olhar. Sem falar.
– Você parece estar mais que aborrecido. Está louco da vida, não é? –
fazê-lo falar era a única ajuda que eu podia oferecer.
Ele repetiu o gesto afirmativo. O olhar continuava na pedra. As mãos
espremidas nas coxas. Os pés no abominável ângulo invertidamente
fechado.
– Eu também ando meio louco da vida! Motivos não faltam... Mas você é
muito jovem... O que aconteceu?
Ele tirou a mão direita da fenda, fechou todos os dedos, menos o
indicador e apontou para a mesa na frente de uma lanchonete, onde um
casal bebericava alguma coisa.
– Minha Camila! - balbuciou, rangendo os dentes.
Ela fazia carinhos nos cabelos do rapaz. Ele a beijava no rosto.
Sorriam. Riam. Quando ele devolveu a mão para o aperto das pernas, vi
a reluzente aliança, indicando noivado recente.
Olhei para o casal. A moça enfiava a mão direita nos cabelos do rapaz
num carinho persistente, mostrando o brilho da novíssima aliança.
Ele voltou a apalpar seu corpo, estancando tristezas. Levantou-se.
Olhar nas pedras, embrenhou-se no tempo.
– Espere! Quero...
Tarde demais. Já não me ouvia, inundado que estava de multidão.
Eu tinha algo importante a dizer. Queria que ele parasse de se
apalpar. Que deixasse a tristeza vazar todinha. Que ela escorresse
livre, gemendo ou rindo, por seu corpo. Drenando-a, não a deixaria se
transformar em ódio velado, depois em ódio mortal, depois em vingança,
em castigo, morte, depois em mais tristeza prisioneira. Se ele tirasse
os olhos da pedra, separasse os bicos dos sapatos e até juntasse os
calcanhares; se desmanchasse as mãos postas, erguesse os braços, numa
outra geometria de ângulos áureos, tudo mudaria... Mas ele já tinha se
enfiado no povaréu...
Quebrando meus ingênuos devaneios, a gritaria veio lá da lanchonete em
plena Rua das Flores. Gente se aglomerando exatamente em volta da
mesma mesa apontada há pouco. A aglomeração aumentou rapidamente e eu
já não podia ver mais nada. Levantei-me e fui me aproximando, tentando
saber o que acontecera. Colocar-me nas pontas dos pés de nada
adiantou.
– O que aconteceu? – perguntei para outro curioso.
– Um cara deu uma facada nas costas de uma garota. É ela que está
caída ali no chão.
O som eletrônico da sirene se aproximando flagrou-me assustado com
minhas mãos postas: estavam enfiadas entre as pernas fechadas. Os pés,
em ângulo obtuso. Bicos encostados, calcanhares afastados.
(11 de dezembro/2004)
CooJornal no 398
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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