18/12/2004
Ano 8 - Número 399

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


O primeiro abraço de Octacílio



 

Octacílio era a encarnação da felicidade. Talvez ele fosse a própria felicidade. Completamente analfabeto, quase com trinta anos, mantém um sorriso permanente nos olhos claros. Se a boca não era para ele instrumento de comunicação, os olhos certamente o eram. E eles nunca emitiram um único sinal de contrariedade. Sua mudez nasceu com ele. A surdez foi irmã gêmea. Era muito feliz, o Octacílio.

Numa daquelas madrugadas frias de Curitiba, inverno pleno, Frederica ouviu o marido disfarçando ruídos, levantar-se, juntar uns trapos, enfiar a cara pela janela do barraco, soltar aquele vapor pelas ventas, pular e desaparecer. Ela esperava por isto, já que ele não admitia ter um filho aleijão. Culpava a companheira. Na verdade, não teve coragem de enfrentar a criação de Octacílio. Acovardou-se. Fugiu para o nordeste. Nunca mais souberam dele.

Frederica e Octacílio ficaram indiferentes. Gente pobre da vila revezou ajuda e Octacílio cresceu. Frederica o carregou no colo até os quinze anos. Depois nas costas, como um saco de batatas, meio arrastado, quando pesou demais para o colo. Ele ria, ria de seu próprio jeito, naquele período de transição entre o colo e as costas. Ria um riso penoso, quando ficou pesado demais e a mãe não agüentou. Um riso desorientado, gutural, grave, mas era certamente um riso, porque seus olhos não mentiam.

Frederica rejeitou todos os assédios masculinos da vila. Um filho bastava. Aprendeu a calar, mesmo porque exaurira suas cordas vocais em lamúrias e desespero. Com o tempo, aquietou-se. Conformou-se, mas nunca teve certeza da surdez do filho. Hoje está velha, gasta, cansada e olha para Octacílio, sentado na cadeira de rodas que uma fundação emprestou e que foi uma benção para suas agruras.

Parece até divertir-se, assistindo o filho deslizar pelo barraco, trombando nos parcos móveis, exalando felicidade. Só parece, pois sofre e o sofrimento transborda pelos olhos.

A infelicidade de Frederica está incorporada em seus poros. Enquanto Octacílio é a felicidade encarnada, ela é a própria infelicidade. Os cantos dos olhos são caídos, reduzindo a área branca. As pálpebras murchas deixam seus olhos negros pequenos, quase sumidos no rosto magro. Os córregos rugosos junto ao nariz estão sempre úmidos e ela os enxuga o tempo todo com um lenço enorme, quase uma toalha, manchada, embolorada, esfiapada, amarfanhada, que sai e volta do cós da saia comprida. Seu nariz escorre. Escorre sempre, confundindo a coriza eterna com um choro crônico, um choro sem emoção.

Neste exato momento, olhos jogados ao acaso na tentativa de nada mais ver, nada mais sentir, ela se depara com o calendário da Mercearia de seu João, pendurado na tábua da cozinha. Percebe o dia, o mês, o ano... Num repente, seus olhos se agigantam. Os cantos caídos se erguem. O branco floresce e o preto se realça num brilho antigo. Dá um salto da banqueta. Grita um grito que ecoa pelas vielas sujas: “Trinta anos!”. Octacílio se volta para ela com aqueles olhos claros que lembram os do marido fujão. Ele sorri completo, não só com os olhos, mas com o corpo inteiro que se sacode infantilmente na cadeira. Com esforço, ergue o braço, junta o dedo mínimo com o polegar e mostra os três dedos para Frederica. Ela se aproxima, ajoelha-se a seu lado. Na porta, a vila se aglomera e assiste calada, o primeiro abraço de Frederica e Octacílio.


(18 de dezembro/2004)
CooJornal no 399


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
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