07/01/2005
Ano 8 - Número 402

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


O pacotinho do Zé


 

O Zé é daqueles que reúne as perfeitas condições para se aplicar o conto do vigário ou qualquer outro conto que se queira. Nem precisa ser um conto sofisticado, engendrado nos detalhes matemáticos de convencimento. Não! Nada disto é preciso. As conversas são sempre fáceis. E ele acaba esvaziando os bolsos, entregando tudo o que tem, em troca de um pacotinho qualquer. Quando recebe, sapateia felicidade, canta bobagens, pula feito criança e vai esbanjar suas forças em outras paragens. Com os bolsos vazios, mas feliz com seu pacotinho.

Zé ambula e perambula pelas calçadas com uma cara no limiar entre o ingênuo e o imbecil. É grande! Muito grande! Forte! Muito forte! Mas não tem noção exata de sua grandeza nem de sua força. A coordenação motora é falha. Um braço não sabe o que o outro faz. Deve ser algum problema neurológico, conseqüência de um parto confuso. As pernas brigam entre si, num titubeio permanente quanto ao rumo que seu corpo gigante deve seguir.

Vagabundeia por aí, às vezes tal qual um mendigo abandonado pela sorte e pelos poderosos, exalando tristezas. Outras vezes, surpreende ao colocar sua vontade com firmeza, empurrado por algum espertinho em busca de diversão ou de lucro fácil sobre o coitado.

Coitado! É assim sua vida desde tenra idade. Hoje, quase maduro, ainda não encontrou a trilha. Valente como é, tem muita utilidade para os exploradores. É requisitado para o trabalho duro, pesado. E ganha seus trocados... Mas como é muito útil, o Zé é tratado com certo jeito para não causar tumulto nem quebrar os cristais. Muito menos para atrapalhar os planos da caterva de aproveitadores que anda solta por aí.

Essa caterva já é conhecida pela sociedade. Já foi fichada e identificada, mas é muito esperta e tem instrumentos para manter a imbecilidade do Zé intacta. Claro! Isto é fundamental. Caso contrário, como poderiam passar a vida sem suar, apenas gastando uns minutinhos de fala mansa, limpando os bolsos do Zé?

É assim, por sua qualidade de bobo, que é respeitado. Um bobo com poder enrustido. Embora perambule a esmo, meio sem destino, tem vontades e bate o pé com raiva quando quer alguma coisa. Nesta hora, é preciso saber lidar com ele. E é fácil, divertido, ludibriá-lo. Logo se acalma com qualquer bugiganga.

No último dia do ano, naqueles momentos confusos em que se procura saber exatamente se é ainda o último ou já o primeiro, o Zé aparece todo faceiro, atrás de seu pacotinho novo. O velho já não presta mais. Nem funcionou direito e já enjoou, esqueceu. Jogou fora! Estúpido como é, não reclama da inutilidade. Quer um novo! E não sabe que o novo também não vai prestar para nada. Mas o Zé é assim mesmo: bobão, ingênuo, até meio idiota. Alguns até desconfiam que ele sabe de tudo, mas afinal, vive da esperança de que o novo será diferente do velho, ora essa!

Alguns cientistas dizem que um dia ele vai acordar dessa letargia e descobrir sua força. Vai acabar se vingando dos aproveitadores. Nesta hora vai mudar de nome e deixar de ser Zé Povinho.

 

(07 de janeiro/2005)
CooJornal no 402


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br