05/02/2005
Ano 8 - Número 406
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
A escolha do tirano
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Por que o povo está magoado? Porque está cansado!
Quer fechar os olhos. Não gosta mais do que vê. Olha para trás e vê o
bisavô, o avô, o pai. Olha para si mesmo e olha para frente. Vê seu
filho, seu neto, seu bisneto. E o que vê? Vê o velho enfermo,
encolhido, expulso da porta da loja na manhã que começa, depois da
noite ao relento. Vê o menino sem pátria pedindo a moeda da pátria. Vê
a velha conformada, enrugada, encurvada que fechou as esperanças num
coração que vasa no posto de saúde. Vê a menina boa, com cara suja de
menino mau. Menina vendida pela migalha da vida. Menina do beco, moça
abortada, mulher machucada, velha largada. Vê o menino mau, com cara
limpa de menino bom. Cara de menino com rastros da barba que camufla o
rosto bandido. Vê o assaltante que mata a mãe que mata a esperança
perdida.
Minha alma sofre hoje. Sofreu ontem. Fecho os olhos para ver o que
meus olhos abertos não vêem.
De olhos fechados, vejo a história dos séculos, repetindo a receita
escrita com a mão forjada, fundida na pedra dura do coração de sangue
azul. "O poder emana do povo e em seu nome será exercido". Nossa
democracia! Nossa ironia! Nossa utopia!
Fizemos tantas revoluções para trocar os homens. Sempre colocamos
homens para cuidar das novas ordens. A cada revolução nos cantos do
mundo, as esperanças avançam sobre os palácios. Os palácios da
tirania, da Bastilha ao Alvorada, sempre foram postos abaixo. Seus
tiranos substituídos por nossos louvados heróis. E nossos heróis
transformados em novos e sedentos tiranos.
Compreendo a tristeza do pai sem nome, que não cansa de trabalhar de
sol a lua, de lua a sol, de lua a lua. Trabalha e sua e leva o fruto
do trabalho aos palácios perdulários. Sedentos de impostos, impondo a
derrama sem piedade. E volta do palácio ao casebre para consolar o
filho sedento, sarnento.
Entendo o povo do salário comprimido e do orçamento vendido, que,
ingênuo, vota sem escola no tirano travestido de herói.
Abro os olhos e vejo cada um, caminhando acelerado para lugares
sonhados. Olho mais e ainda vejo sorrisos. Risos. Vejo a esperança
voltar no grito do camelô registrado, do camelô clandestino. Vejo o
riso, rastro da inocência que se perde, no rostinho da menina suja que
me pede a moeda real. Ouço o grito da velha soprano que anuncia
cantando a loteria mágica que vai nos levar um dia ao poder. É o canto
de sereia nos calçadões do mundo, vendendo as ilusões que alimentam a
vida por mais um dia. Eu compro o bilhete reluzente de cores e dou
para o velho que junta seus trapos, abandonando o terreno de meio
metro da loja, invadido na noite molhada.
O velho que amarga sua expulsão no conformismo de um sábio. O velho
que pega o bilhete da sorte e abre a enorme boca num sorriso sem
dentes, sem plano de saúde, sem barraco. O velho que bebe a cachaça
brasileira comprada com a esmola de ontem, pagando em sua ignorância
inocente, o pesado imposto de hoje que mantém seu tirano, herói por
mais um tempo.
Eu amo essa gente assaltada, assustada, cansada, quebrada, magoada que
mesmo assim não pára de trabalhar, de sonhar, de esperar, de sorrir,
de fazer música, de fazer arte, de dançar, de cantar, de escolher o
herói de hoje, seu tirano de amanhã.
(05 de fevereiro/2005)
CooJornal no 406
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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