12/02/2005
Ano 8 - Número 407

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


Os bruxos nos governam



 

A meu redor, o barulho pachorrento, repetitivo. Vozes se sobressaindo muito longe, muito perto. Frases que passam indiferentes, de pessoas indiferentes que passam.

Pequena brisa, intermitente, se esforçando para barulhar. Não consegue. Vencida, faz parceria cúmplice com o cenário e me leva a cochilos breves. O corpo se sacode brusco, querendo acordar. É o efeito do jogo de forças misteriosas entre o dorminhocar e o alerta. Abro os olhos e o cenário se movimenta. Nesse torpor de início de tarde, nada tem significado. Tudo é desimportante, passageiro... O grande perigo é cruzar o ponto crítico. Atravessar a fronteira irresponsável entre a realidade afogada pelo cochilo, e o sonho desinibido que luta para assaltar a atenção.

É nesse amálgama cerebral que reside a pastosa matéria prima a me resgatar a juventude inconformada de minha história.

As pessoas passam. Velhos bruxos, novas bruxas que riem, sacodem, ameaçam com suas diabólicas ferramentas. Num átimo, voltam as suas aparências corriqueiras. Ninguém percebe a transformação efêmera. Não são velhos bruxos, são príncipes, cheios de abnegados idealismos. São fadas, lindas, comportadas, dispostas a se voltar para cada necessidade a sua volta.

Meu cochilo, minhas fadas e príncipes. Meu alerta, minhas bruxas, meus bruxos.

Em minha infância, jamais tinha visto um bruxo, até aquele dia inesquecível. Foi uma recepção para alguém ilustre, uma grande autoridade que chegava à cidade. Não me lembro que autoridade era. Meninos e meninas, eu no meio, trazidos por catequistas ou professores, enfileirados à força para o cumprimento pessoal. Dádiva bondosa daquela alta autoridade... Era, supostamente, um anjo, vestido de bondade. Roupas ricas e simbólicas da importância insofismável de seu saber e autoridade. A fila se esgota. Deparo-me de frente com a autoridade. Ofereceu-me sua mão anelada. Ouro e pedras preciosas em luta para se exibirem...

Nesse dia, vi assustado que o anjo se vestia de bruxo. Não! Naquele dia vi que o bruxo se vestia de anjo. Golpe violento para um menino que despertava para a justiça, para a igualdade, para a alegria de um mundo integralmente bom. Ao pegar sua mão, cumprindo o forçado ritual, meu coração de menino viu o olhar faiscante de avareza, desonestidade, malvadeza, luxúria, falsidade, sobressaindo-se num repente, matando minha inocente imagem do mundo bom. Desnudou-se em minha frente a autoridade-bruxo, vestida de bruxo por baixo, de anjo por cima. Mas eu vi a roupa de baixo. Eu vi o bruxo.

É essa autoridade-diabo que me persegue, que nos persegue vida afora. Esses bruxos e bruxas travestidos de príncipes e fadas nos tiram na calada de suas consciências metalilficadas, o nutrido e acalentado idealismo ingênuo de salvar a humanidade.

Jamais pude esquecer aquele gosto prematuro do caldo que se prepara nas torres, nos porões, nos altares, nos salões aveludados, nas mesas fartas, para depois ser oferecido a nossa fantasia conformada com a heróica miséria.

Confesso que lutei uma vida, a única de que dispunha, para ver o "rei nu". Não consegui. Eles sempre estão vestidos, mas trocam de fantasia quando se distraem por um segundo. Só uma coisa não admitem jamais: não querem andar nus. Essa é a única vergonha que os assusta.

Em minha alternância entre o cochilo e o alerta, posso ver, mesmo que por um brevíssimo momento, as verdadeiras vestes com que desfilam. Eles, por sua vez, quando alternam o cochilo e o alerta, sentem medo. Medo de nosso olhar sarcástico de quem sabe o que vai acontecer um dia. Entreolham-se, conferindo seus trajes. Uma fina réstia de medo parece penetrar em seus domínios.

 

(12 de fevereiro/2005)
CooJornal no 407


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br