26/02/2005
Ano 8 - Número 409

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


A cadeira de vime


 

Ela fazia esforço para embalar a cadeira de balanço velha – vime autêntico – que rangia desconsolada, sonhando com a merecida aposentadoria. Um rangido suave, seguro, idêntico a cada ciclo, se repetia indefinidamente, num gesto de amor material a sua dona.

Não fosse a interrupção bruta provocada por frenéticos motores indiferentes, rompendo abrutalhados com a mais tênue tentativa de um novo acorde da música das tardes, Domiciana certamente adormeceria naquele vai-e-vem hipnótico.

No limbo inseguro de labirintos perdidos entre lembranças verdadeiras e imaginação desordenada, seu jardim fora encolhendo ano a ano. A fumaça intrometida se achegou a seus domínios sem convite, pouco a pouco, expulsa com vigor cada vez mais ousado, por escapamentos arrogantes. O verde perdera o viço. As roseiras perderam as rosas. O monocromático, em tons de marrom aborrecido, dominou as flores. Mesmo assim, a rotina de regar as plantas nas manhãs insossas, não se interrompera.

Domiciana recusava-se a mudanças. Fincou seus pés, sua teimosia e sua autoridade, nas ilusões em que se transformara seu refúgio. Refúgio? Perguntava sem parar seu sobrinho mais velho, na insistente e interminável tentativa de arrancá-la para outra paisagem.

A casa decrépita, antiga, enrustida no entremeio da modernidade arquitetônica avassaladora, insistia em não ser vendida, alugada, doada, cedida. E cada dia se parecia menos com qualquer coisa semelhante a refúgio...

– Só saio daqui num caixão – repetia Domiciana de forma agressiva, com sua rouquidão amasculinizada por uma faringite crônica, encerrando as enfadonhas e repetitivas conversas dominicais.

Houve tempo em que ansiava pelos finais de semana. Hoje, não vê a hora em que todos partam. Que a deixem a sós com sua cadeira de vime, rangendo uma conversa pendular agradável a seus ouvidos. A única que compreende plenamente seus desejos, seus secretos desejos.

– Gente teimosa como você não morre nunca.

Costumava ouvir a ofensa com um gesto de desprezo, acariciando com suas mãos encaroçadas os braços suaves de sua “vime” fiel. A cadeira retribuía com mutações sonoras que só Domiciana ouvia, entendia.

As tardes de domingo terminavam melancólicas, o coração agitado numa aceleração angustiante. Só depois de um bom tempo, ainda no limiar da noite, seus batimentos cardíacos sincronizavam com o balanço e avisavam-na do recolhimento indispensável para os corredores escuros da casa. Era hora de Domiciana deslizar suas gastas chinelas pelas tábuas largas da sala que também rangiam num acordo submisso, num prolongamento da canção de sua cadeira lá de fora. E acontecia a despedida para mais uma noite confusa, acalmada pela química bruta de um sem-número de medicamentos caóticos. Perdida nas pseudo-tarefas de casa, Domiciana via partir rapidamente cada santo dia, sem nunca esquecer a quarta-feira sagrada de sua visita indiscutível às novenas do Perpétuo Socorro. Depois, era aguardar as angústias do domingo e dos parentes

Foi neste último domingo que o mesmo sobrinho, com sua trupe barulhenta, estacionou, a duras penas e à custa de grandes impropérios, nas imediações de Domiciana. Todos pararam estáticos diante da varanda empoeirada e da cadeira de vime autêntico, rangendo chorosa, inexplicavelmente vazia.

 

(26 de fevereiro/2005)
CooJornal no 409


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br