12/03/2005
Ano 8 - Número 411
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Juventude sem alma
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Há um barulho suave lá fora. Ritmado. Um vento brando talvez. Um
acalanto quebrado por um farfalhar de folhas, tal qual um aplauso
coletivamente combinado. Aqui dentro, uma quietude morna, entremeada
por ruídos esporádicos do pensamento errático. Dúvidas perambulam
descompromissadas, amotinando-se contra a calmaria dos tempos.
Olho-me no espelho. Gravo minha imagem deteriorada. Rebusco fotos
antigas e perguntas esvoaçam nervosas. Uma se encrespa e bate forte à
porta de agora. Para onde foram os sonhos de minha geração valente? E
uma fila interminável de tantas outras me cutuca o espírito. Que fim
deu a utopia deliciosa de nossa juventude? Onde está a alma da
juventude de hoje?
As fotos velhas e a imagem no espelho gritam que minha geração está
indo embora. Cumprindo seu compulsório destino biológico, abandona a
arena, vencida pelas novas escolhas de uma sociedade desumana. Nossos
sonhos se esvaíram aos poucos. Nossas idéias, eivadas de nobreza e
solidariedade, escaparam indisciplinadas pelas rugas escorregadias do
pragmatismo absoluto destes dias escuros.
Converso com os jovens e choca-me o tom da fala. Não há resquícios de
nobreza em seus planos. As conquistas são a tônica de tudo. Competir e
vencer a todos é o mote soberano! Competir para vencer e destruir as
ameaças. Falam em rede de relacionamentos. Relacionamentos que não se
formam para saborear uma companhia de almas, de ideais, de ambições de
um mundo melhor, mais humano, mas sim, para que se possa ampliar o
circo das conquistas, para aumentar a força bruta nas vantagens da
troca.
Se buscávamos conhecimentos, era pelo sabor que eles traziam em si
mesmos. Se nos inebriávamos com o que Sócrates pensava, era simples e
puramente porque nos fazia entender o mundo, criar nossos sonhos de
liberdade. Se buscávamos a estética, era pela harmonia que ela
conjugava com nosso espírito. Se discutíamos a ética, era porque
moldava nossa conduta e sem ela, tudo estaria perdido. Se discutíamos
as religiões, era porque sabíamos que o equilíbrio dos espíritos,
distantes da profundeza das filosofias, só podia ser trazido por elas
e temporariamente, não para que se tornassem mais um canal de
exploração material da carência de um povo esquecido. E hoje, o jovem
se inebria com a fortuna futura que dará poder. Um poder de arena, de
consumo, de fama, de espezinhar o perdedor e louvar o vencedor. O que
fizemos, meu Deus, com nossa juventude?
Quando nos reuníamos em pequenos ou grandes grupos, afloravam os
projetos grandiosos. Neles jamais entravam os ganhos das aplicações
financeiras, os salários gigantescos pagos, sem saber, pelos
abandonados. Jamais entrava a discussão sobre os comportamentos
interesseiros mais eficientes. Nas conversas, éramos pequenos
gigantes, apenas esperando o momento de mudar o mundo e vê-lo caminhar
pela solidariedade, pela igualdade, pela felicidade. E das conversas
partíamos para as ações. Criávamos associações, entidades puras, quer
para aperfeiçoar nossos conhecimentos, que desejávamos profundos, quer
para organizarmos ações eficientes. Jamais para nos cotizarmos na
criação de um fundo especulativo de investimentos de qualquer espécie.
Em nossas cabeças ingênuas, como espadachins mascarados a lutar contra
o sistema, pululavam idéias de grandeza, de luta pelo bem, pelo bem
comum. Onde foi parar tudo isto? Solaparam o caráter. Aviltaram os
sonhos. Dilapidaram as utopias. Hoje, o que vemos são os poderosos
escancarando suas conversas espúrias de divisão do bolo, surrupiado de
um povo ignorante e sofrido. E porque ignorante, um povo que aplaude
enlouquecido a ignorância.
Há ainda um barulho suave lá fora. Ritmado. Um vento brando talvez. Um
acalanto quebrado por um farfalhar de folhas, tal qual um aplauso
coletivamente combinado. Mas não é aplauso, é choro. Choro mudo pelo
teatro a que se obriga assistir a natureza estupefata. Fizemos o jovem
esquecer as nobres lutas e ele luta a guerra suja do possuir. Tudo se
tornou um jogo de interesses e se condenamos os espetáculos dos shows
de realidade que a televisão espalha, é mera hipocrisia
intelectualóide. É lá que temos o inventário de nossa sociedade
corrompida.
Aqui dentro, uma quietude morna é arrebentada por estrondos de meu
pensamento armado. Haverá que ter um dia, o retorno à nobreza das
idéias. Não o que existe hoje, retratado no fingimento escancarado do
que chamam de “responsabilidade social”. Usa-se essa expressãozinha
marota para criar degraus na conquista indiscriminada e na
justificativa descarada para o roubo de qualquer espécie. A
preocupação com o social se torna apenas mais uma arma para conquistar
espaços.
Teimoso que sou, ainda espero por um retorno ao caráter elevado de uma
juventude que perdeu o sonho bom, que gosta do pesadelo em que vive,
enfiada no emaranhado de drogas químicas reais e virtuais e o que é a
pior notícia: ficou sem alma.
(12 de março/2005)
CooJornal no 411
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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