19/03/2005
Ano 8 - Número 412
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Neo-obscurantismo
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Depois da violenta morte do marido, Elda foi tentar a sorte na
cidade grande. A filha tinha lá seus sete anos. Menina esperta,
curiosa, ativa, única herança de seu efêmero casamento, Nadir se
tornou o objetivo único de sua vida.
Ajeitou-se no barraco de uma prima bondosa na favela mais populosa da
civilização. Achou serviço de diarista na casa de Dona Margarida, uma
professora. Nadir acompanhava a mãe no serviço. Elda temia deixar a
filha sozinha. Dona Margarida tinha uma sala cheia de livros. Nadir se
interessou desde o primeiro dia. Dona Margarida fez questão de
mostrá-los, deixando-a escolher um de cada vez.
Nadir revirava os livros com delicadeza. Tratava-os como peças raras,
importantes. Venerava-os até. Mal havia aprendido a ler, sentiu uma
atração irresistível pelos mistérios que podiam estar escondidos nas
fileiras de letras e palavras. Intuitivamente, sabia que ali havia
tesouros preciosos e ela poderia descobri-los todos.
Trabalhava duro, ajudando a mãe na limpeza, até a chegada de Dona
Margarida. Ao final do dia, Nadir se mostrava ansiosa para tomar
emprestado mais um livro, mais uma fonte de alegrias, de descobertas.
Embevecia-se com as palavras da professora. Questionava muito, com
insaciável sofreguidão, disparando perguntas sobre todos os assuntos.
A professora, profissionalmente paciente, respondia a tudo. Seus
olhinhos brilharam tanto que espalharam felicidade gratuita, quando a
professora deixou-a levar um livro por semana, como presente. E Nadir
foi criando sua pequena coleção.
A manhã estava escura, quando Elda avisou Nadir que não iriam mais
para a casa da professora. Teriam que voltar para o mato. O marido da
prima exigia!
A tristeza se abateu sobre ela. Seu único consolo, os livros que
ganhara de Dona Margarida. A vida das duas passou a ser a roça,
aceitas que foram pelo antigo patrão do falecido. Ajeitaram-se como
puderam.
Nadir reacomodou seus sonhos e nos finais de tarde reunia outras
crianças para contar sua história breve. Falar de uma professora, sua
amiga. E falar dos segredos e tesouros de seus livros. Tornou-se, ela
própria, uma professora entusiasmada. Cresceu e voltou para a cidade.
Lutou com a garra dos grandes, sempre na companhia dos livros, seus
amigos fiéis. Hoje, depois de laureada com o título de mestre,
continua envolta por luzes, tesouros, conhecimento e livros em busca
de um novo título, o de doutora.
De repente, ela vê com tristeza e sofrimento a doença da escuridão se
tornar orgulho no meio de seu povo. Uma onda epidêmica avassaladora
caminha pelas vielas e avenidas. Um desprezo pelos livros e pela
leitura se alastra, mostrando ao jovem que é possível conquistar o que
quiser, sem livros, sem escola, sem conhecimento, sem mérito.
Nadir sofre! Sofre ao ver o presidente de seu país demonstrar um
perigoso orgulho pela ignorância, pela preguiça da leitura. Ele
insiste em manter-se neste limbo obscuro, apesar de todas as condições
a seu favor para estudar. Nega-se a dar à nação o exemplo de louvor ao
preparo efetivo, à cultura que descortina ao ser humano a visão
verdadeira do mundo e do universo, a compreensão abrangente dos fatos,
das palavras, dos conceitos, da história, da geografia, da lógica, dos
problemas, das soluções. Nadir padece, ao vê-lo desprezar
arrogantemente qualquer esforço na busca pessoal do conhecimento e por
falta dele, fica a lamentar os discursos ocos que despeja iludido,
cheios de bobagens, de erros crassos, de ausência absoluta de
autocrítica. Sua melancolia se potencializa, ao ver o povo aplaudi-lo
por pena, ou por culpa ou por piada. Seu exemplo funesto insiste em
afirmar que é possível galgar os mais altos postos da nação, com a
indolência própria dos ignorantes voluntários que soltam bocejo
enfadonho diante de um livro de cem páginas, de um relatório de dez,
ou de sínteses informativas de meia lauda sobre usos e costumes dos
países que visita. E pela preguiça de ler, acaba se postando em
pedestais do ridículo, pronunciando lá de cima, como um sábio de
botequim, frases que pensa serem verdadeiras pérolas de humor e de
sabedoria.
Nadir sofre ainda mais porque ama os livros. Ama as luzes e abomina a
escuridão da ignorância, mas vê seu povo mergulhar como vassalo em um
neo-obscurantismo nascente.
(19 de março/2005)
CooJornal no 412
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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