26/03/2005
Ano 8 - Número 413
ARQUIVO AIRO ZAMONER
|
Airo Zamoner
A partilha da rapinagem
|
 |
Perneta, Buxim e Paçoca estavam exultantes de alegria. Tinham
conseguido organizar o bando como nunca. Planejaram o assalto com
tanto esmero e técnica que surpreenderam a eles próprios. Na verdade,
trabalharam durante muitos anos para convencer que o assalto seria
possível e o mais importante, cheio de vantagens.
Agora, estavam todos juntos, num ápice de glórias, sem precisar de
esconderijos como antes. Buxim falava que o dia maravilhoso tinha
chegado, graças a um avanço de comportamento. Esse avanço provocou uma
união, no início quase impossível, entre as maiores gangues rivais.
Graças a ele, chegaram no alto, no mais alto patamar do gozo maior de
todas as venturas, da riqueza, do prazer infinitos. Agora, tudo estava
ali, à disposição de todos. O assalto estava feito e fora muito bem
sucedido.
Perneta, sem largar seu charuto de estimação, mancando como sempre, já
que lhe faltava o dedão no pé esquerdo amputado num acidente de
trabalho, chegou até uma grande cortina e sacudiu a ponta, soltando-a
lá do alto. A seda rubra como sangue desabou suavemente, desvendando
aos poucos, o esquema do fruto grandioso do maior assalto já
planejado. Ouviu-se uma prolongada onomatopéia de admiração conjunta
da platéia heterogênea.
Buxim explicou que a pilhagem não podia ser trazida inteira. Era coisa
muito grande. O jeito foi trazer só o resumo ainda não bem
dimensionado, para mostrar a magnitude do que tinham conquistado.
Aquilo serviria de base na partilha democrática a começar naquele
instante. Como acontece num enxame de abelhas lambuzadas de mel, um
zunzum percorreu a platéia. Zunzum cujo tom variava de incredulidade
para admiração, desaguando em cobiça deslavada. Fez-se um silêncio
prolongado. Ninguém, muito menos Perneta, conseguia entender o tal
esquema. Era complexo demais para cabeças tão primárias, desprovidas
de qualquer tipo de conhecimento mais elaborado.
Cada naco do tesouro roubado com tanta astúcia e zelo tinha que ser
discutido à exaustão, para se saber com certeza, a quem caberia. E
tinha que respeitar muitos critérios. O mais relevante, o da
participação efetiva de cada um no assalto.
A coisa era tão grande que as vítimas foram comunicadas de tudo o que
ocorrera no mais agressivo caradurismo da história. Lá fora,
murmuravam entre lamurientos e esperançosos. Estupefatos, nada podiam
fazer, já que o comando não era mais deles.
Aos poucos, os assaltantes descobriram que a distribuição da riqueza
estava sendo mais difícil que o próprio assalto. Discussões
intermináveis, medos, escrúpulos, arapucas, chantagens, ameaças foram
ocorrendo lá no alto. Quando tudo parecia estar equacionado e a
maioria gargalhava de satisfação, alguém alegava merecer mais na hora
de rachar o bolo e tudo recomeçava, como se nada tivesse avançado.
Cansados da espera, os saqueados não mais se lamentavam. Como única
fonte de alívio, passaram a fazer piadas execráveis para zombar dos
novos donos espúrios da coisa, salientando a ridícula situação dos
desentendimentos entre os recentes possuidores do cobiçado tesouro.
Algumas vezes, Paçoca demonstrava sofrimento. Perneta, porém, pulava
feito criança, um pulo manco, muito engraçado, espirrando palavras
burras que provocavam os risos zombeteiros da malta inteira. Mas nem
todos queriam divertimento. A maioria queria mesmo era seu xaboque
apetitoso, sua parte na coisa. E para isto, poderiam até sair matando
por aí.
Perneta, então, lia scripts elaborados por seus comparsas mais
instruídos, tentando acalmar os insatisfeitos. Mas Perneta era sôfrego
na ânsia de falar por todos os seus furos e despejava tanta bobagem
que estragava os pequenos avanços.
Meses, até anos se passaram e a cada novo ensaio de uma partilha da
rapinagem, seguia-se um furacão de queixas e ameaças.
Perneta, finalmente, lembrou-se de uma autoridade que imaginava ter
conquistado ao longo de muitos anos junto às gangues mais afamadas e
principalmente, coisa inexplicável, até junto a um bom número dos
próprios assaltados. Matutou sobre este apoio todo e, com o rosto
avermelhado, os cabelos um tanto desgrenhados, suando a cântaros,
bateu na mesa com estrepitosa e hilariante decisão, fazendo voar a
fileira de copos vazios. Alguns rolaram para o chão e quebrados,
deixaram escorrer pequenos filetes sobrantes do líquido inflamável. O
ar ficou envolvido com o aroma de Baco. Paçoca, apressado, engatinhou
pelo chão recolhendo cacos enquanto Buxim abanava o espaço para
dissipar os fedores. Aproveitando o silêncio efêmero, Perneta usou da
palavra para declarar à viva voz, doesse a quem doesse, que a
distribuição tão esperada já estava em sua cabeça e foi dizendo, sem
tomar fôlego, os nomes completos de cada ministro.
(26 de março/2005)
CooJornal no 413
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
|
|