02/04/2005
Ano 8 - Número 414

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


Olhos desbotados


 

Doraci nunca esqueceu Fabrício, mesmo depois que ele partiu de carona, fugindo da miséria e marasmo que campeavam pela cidade.

Ela ficou revoltada. Sabia que um dia conversariam. Claro que isto iria acontecer. Ele não teve paciência. Se tivesse, saberia da paixão que vivia dentro dela. Mas ele rompera tudo, desaparecendo daquela maneira, na boléia de um caminhão desconhecido. Nem disse para ninguém qual o destino.

Mas o desgraçado do Fabrício não saía da cabeça de Doraci. Ficava ali, perturbando sua pele e seus pensamentos durante o dia inteiro. E mais ainda, nas noites longas em que aparecia intempestivamente, acordando-a do sonho ruim. Surgia bem pequeno, ainda um menino franzino, para uma menina franzina ainda. Não falava nada, já que eles nunca haviam conversado de verdade.

O encontro único foi no armazém do Onofre. Ele estava enrustido num canto, esperando a mãe dele, e ela agarrada na saia desbotada, barra esfiapada e suja, da mãe dela. Trocaram olhares tímidos e ele correu até ela, pegou-a pela mão de repente. Ela sentiu umas coisas que até hoje perturbam o sono e a vida.

Agora, ele desapareceu naquele caminhão maldito e nem se despediu. Deixou-a mergulhada na miséria e no marasmo. Como esquecer aquele filho da mãe, o único que pegou em sua mão? O único que a fez mudar os olhos da vida. O único que a fez sonhar de noite e de dia.

É! Doraci nunca esqueceu Fabrício. E ela agora vai sozinha até o armazém do Onofre. Nem é mais o Onofre quem atende. Coitado daquele velho. Foi ficando cada dia mais velho, até que o levaram para o cemitério ali no Morro do Galo. Agora é o Onofrinho quem a serve com aqueles olhos desbotados. Doraci vê o reflexo da saia no balcão envidraçado. Vê a filha agarrada em sua saia desbotada, barra esfiapada e suja. Suja porque comprida pela fé. Suja pelo pó infinito que voa da estrada. Sente ódio do Fabrício. Sente ódio daquela vida repetida. Sente ódio do Onofrinho. Coitado! Ele nem tem culpa.

Doraci vai até a porta. Fica olhando a porta da cidade dos infernos e vê a poeira levantar cada vez que um carro, ou caminhão, passa ali adiante. Só a poeira. Os carros ficam escondidos pela mata rasteira, seca, eternamente marrom. Ela espera sempre. Quer ver se algum deles pega o desvio e entra na vila. Fabrício poderia estar voltando. Quem sabe ele sentisse a falta de Doraci e voltaria de uma vez! Mas de que adianta voltar, se agora ela tem uma filha.

Ela pega a mão da filha, sacode a saia poeirenta e sai arrastando as duas até os fundos da venda. Fica lá, engarrafando mel. Limpando peixe. Misturando cheiros inimigos, misturando pensamentos inimigos.

Um dia ainda ela vai sair correndo até a primeira nuvem de poeira que levantar lá na estrada. Vai pegar uma carona, bem como fez o Fabrício. Deixar tudo para trás. Vai deixar o mel, o peixe, a fé, o pó, a saia de barra suja e até a filha ela vai deixar. Fugirá como o Fabrício que deve estar em algum lugar fora do inferno. Até hoje não consegue entender porque casou com esse Onofrinho de olhos desbotados.
 

(02 de abril/2005)
CooJornal no 414


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br