09/04/2005
Ano 8 - Número 415
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
O conselho
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“Vamos acabar de uma vez por todas com esta história!” Ele foi
taxativo. Não admitiu sequer suspiros da platéia atônita. Apontou o
dedo aleatoriamente para três dos presentes. Aos berros, foi dizendo:
você, você e você. Pronto! Está formado o conselho que vai se
encarregar do assunto. E saiu, encabeçando um séqüito de bajuladores
bem pagos.
O conselho se reuniu, logo em seguida, numa das salas do palácio. As
primeiras discussões, como não poderia deixar de ser, foram sobre a
remuneração de seus membros. Nomeados pelo majestoso dedo, agora
estavam diante de uma tarefa.
Começaram definindo a verba, o orçamento, a bufunfa, para viabilizar
os trabalhos. Cada um dos três precisaria de auxiliares para o bom
desempenho da missão. Os seis olhos reluziram clarões de cores as mais
psicodélicas. Tinham na ponta da língua sedenta, listas de pessoas
muito chegadas, digo, muito competentes, que estavam precisando de um
bom dinheiro para arrumar suas vidas. Esta era a hora.
Na sala, apenas três, mas a falação era intensa. Até que o primeiro,
detentor da glória recebida do dedo em riste do grande líder, se
nomeou chefe da comissão. Portanto, dirigiria os trabalhos dali para
frente. Claro que teve a democrática percepção de propor: quem for
contra que se levante. Antes de alguém poder piscar, emendou:
aprovado!
Sugeriu em seguida, que cada membro pudesse nomear dez auxiliares. Foi
o que bastou para que o caos se instalasse no recém-nascido conselho
que tinha por sagrada tarefa, expressa pelo supremo senhor, “acabar de
uma vez por todas com esta história!”. O segundo na ordem real que
recebera a preciosa dedada, propôs vinte, já que dez seria pouco para
o insano trabalho que teriam pela frente e o terceiro propôs trinta.
Colocado o problema em votação, decidiu-se que seriam cinqüenta, mas
que poderiam solicitar, a bem do serviço, ampliação do quadro a
qualquer tempo.
As contas foram feitas às pressas. Precisariam de verba para remunerar
cento e cinqüenta auxiliares, ou duzentos, e mais outro tanto mensal
para si mesmos.
As discussões sobre os valores necessários adentraram pela tarde morna
e pachorrenta do palácio. Decidiram que, dada a imensa relevância do
assunto, deveriam ter salário igual ao maior salário da república. E
assim foi acordado sem discussões maiores. Quanto aos auxiliares,
receberiam ao menos metade do que eles. Feitos os cansativos cálculos,
chegou-se a um valor. Esse valor foi dobrado, para atender às
exigências operacionais do Conselho como automóveis, viagens,
hospedagens, telefonemas, cartões de crédito e outras necessidades
absolutas do serviço.
Encaminharam suas decisões aos órgãos competentes do tesouro nacional.
A aprovação da verba teria que ser imediata e sem discussões, pois os
membros do Conselho recém-formado, haviam sido ungidos com o dedo
imperial e pronto! Isso evitaria que o tesouro mandasse montar um
conselho para analisar as decisões do novo conselho...
Cansados de tanto trabalho, suspenderam as discussões. Marcaram nova
reunião para a semana seguinte. Precisariam da semana toda para
viajar, reunir seus auxiliares em suas bases e avisar aos eleitos que
suas vidas iriam mudar dali para frente, já que teriam uma grande
missão e também um grande e perpétuo salário. Alguém lembrou que isto
demandaria mais tempo do que uma só semana. A proposta para que a nova
reunião acontecesse somente no mês seguinte foi aprovada por
unanimidade.
O presidente do Conselho mobilizou os serviçais do palácio que
providenciariam, na data marcada, a locação de um lugar amplo,
acomodando os cento e cinqüenta auxiliares, ou seriam duzentos? Cada
auxiliar deveria ter seu escritório privativo, devidamente equipado
com tudo o que fosse necessário para o bem-estar completo, já que a
tarefa a realizar seria de suma importância para os destinos da nação.
E assim foi! E assim é! Até hoje!
Ah! A estratosférica conta das imensas despesas do conselho foi
suprida com mais um aumento na carga tributária, coisa fácil de se
fazer através de algum contrabando inocente num artigo escondido, bem
camuflado, no meio de uma medida provisória que trate de um assunto
urgente e relevante como o salvamento dos veados silvestres nas
perigosas estradas brasileiras, por exemplo.
Sim, mas aquele assunto lá do começo em que o grande senhor ordenara
para que “acabassem de vez com aquela história”?
História? Que história?
(09 de abril/2005)
CooJornal no 415
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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