16/04/2005
Ano 8 - Número 416

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


Edinardo, o padeiro

 

Edinardo, o padeiro, não sabia ao certo o que motivara aquela revolução. Mas estava gostando muito.

Depois de tentar separar os Alhos dos Bugalhos e de ver que o Trigo e o Joio eram inseparáveis, o povão se cansou. Todos pareciam maravilhosos, lindos, perfeitos, boníssimos, sérios, competentes. Daí votavam no Trigo, cheios de esperanças. E o desgraçado do Trigo, ao tirar a casca, mostrava que lá dentro só havia mesmo o Joio. Votavam no Joio para avacalhar e quem ganhava era o Joio mesmo.

Num outubro de dois mil e tanto, aconteceu o inesperado. Ninguém saiu de casa. Era novamente dia de eleições. Nos espaços de votação, somente se encontravam Alhos e Bugalhos, Joios e Trigos. Pela primeira vez, esquecendo de votar em si mesmos, saíram desesperados à cata de votantes.

Na rua, montanhas de títulos de eleitores rasgados cobriam com sobra a montanha dos santinhos imaculados.

Uma organização não governamental de plantão forneceu gratuitamente a maiores e menores, alfabetizados e analfabetos, o honroso Título Deseleitor.

Daquele dia em diante, mais outro fenômeno aconteceu, para desespero dos governos em agonia terminal. Ninguém mais pagou impostos. Nem mesmo um mísero tostão. A sonegação passou a ser atitude ética, absolutamente cidadã, depois de espraiar-se o convencimento de que os impostos crescentes em voracidade descarada de todos os poderes, serviam mesmo era ao crime, aos desvios, aos desmandos, às injustiças, às mordomias, ao luxo, aos privilégios descabidos, aos salários milionários, aos cargos eternos, às aposentadorias dos preguiçosos, à indolência, ao descaramento, à má-fé, à burrice, ao orgulho do próprio analfabetismo, ao diabo-a-quatro e principalmente ao sustento abjeto do Joio e dos Bugalhos, dos Trigos e dos Alhos. Jamais a montanha absurda de impostos foi suficiente para a saúde, para a educação, para a segurança, para a criança, para o velho, para o povo.

Quem ainda resistiu e tentou se esgueirar pelas casas bancárias vazias, ou pagar suas guias na calada da Internet, foi execrado em praça pública pelos deseleitores. Pagar impostos passou a ser ato de lesa pátria. Pagar impostos era servir aos bandidos governamentalmente organizados. Era mancomunar-se com o crime.. Por outro lado, votar virou atitude anticidadã. Votar era apoiar a malandragem.

Os preços de todos os produtos caíram pela metade. Os poderes que já estavam podres, se desmancharam miseravelmente nos lixões entupidos da periferia.
A confusão foi total, exatamente como antes da formação dos mundos. Tudo ficou na mais profunda desordem. O Caos vencera a eleição informal de um povo cansado!

Na formação do universo, depois do caos veio a harmonia, o planeta azul, a paz e a felicidade. Naquele país de desgraças, depois do caos veio apenas o próprio Caos, com a cara burra de sempre.

Foi daí que Edinardo acordou, sorrindo de prazer. Esbugalhou os olhos, tentando recompor o sonho lindo que tivera. Só lembrava das sensações gostosas que tivera durante a noite. Mas não houve jeito! Teve aquele branco que todo mundo tem. Acorda-se com uma boa sensação de sair de um sonho maravilhoso, mas não se consegue lembrar do desgraçado. O que era mesmo?

Edinardo juntou a esposa e foi correndo votar em seu candidato que prometera isentar a padaria dos impostos.
 

(16 de abril/2005)
CooJornal no 416


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br