22/04/2005
Ano 8 - Número 417
ARQUIVO AIRO ZAMONER
|
Airo Zamoner
O filósofo do parque
|
 |
Leon adorava caminhar pelos parques de Curitiba, mas tinha uma razão
especial para sempre escolher nas quartas-feiras, o Barigui. Naqueles
dias, desfrutava do prazer imperdível de se encontrar com Fortunato.
Seus encontros ocorriam na pista que circunda o grande lago que por
sua vez é o interior de uma moldura feita do mais puro bosque.
Fortunato era uma figura peculiar, a partir de sua aparência.
Impossível avaliar sua idade! Vestia-se com uma túnica de algodão que
ia até os pés, sempre muito limpa, mas amarrotada. Uma sandália de
couro cru protegia seus passos. Boca, nariz, queixo, tudo se perdia em
uma barba exageradamente comprida. Seu rosto poderia se resumir àquela
barba. Misturava-se com as orelhas, com os cabelos longos e até com as
abundantes sobrancelhas. Restavam de sua fisionomia, apenas os olhos
pequenos, claros, brilhantes e sempre sorridentes, enfiados lá no
fundo daquela máscara grisalha.
Leon estacionava seu carro nas proximidades, já com os pensamentos
voltados para Fortunato, imaginando sobre o que conversariam naquela
manhã.
Fortunato jogou, como quem nada quer, apenas uma palavra: hipocrisia.
Ela caiu de permeio a sua barba e no ar ainda enevoado, brincou tal
qual bolha de sabão colorido. Como o jogo era procurar outras palavras
que se associariam a ela, Leon falou em fingimento.
Fortunato apertou os olhinhos, ampliando o sorriso oculto, num ar de
concordância. Depois surgiu falsidade. E virtude em contraponto.
Leon quis saber porque levantara aquela primeira palavra. No que
pensava afinal, para lembrar de hipocrisia, naquela manhã tão bonita e
fresca? E ele jogou mais uma palavra: caridade.
Daí para frente, a conversa pegou rumo. As palavras se sucederam:
pobreza, evolução, exclusão, mediocridade, responsabilidade, social...
Leon voltava para o estacionamento com a cabeça ensopada de dúvidas e
pensamentos, dos mais superficiais aos mais profundos. E isto o enchia
de satisfações, preenchendo a semana toda de uma introspecção que o
enlevava, aprofundava-o em seus conhecimentos.
Foi assim que aguardou com ansiedade a próxima quarta-feira. Queria
questionar Fortunato sobre a hipocrisia da expressão “responsabilidade
social”, que afinal não era nada mais nada menos que simples caridade,
revestida do mais puro marketing.
A caridade feita às escondidas é virtude. A ação dita de
responsabilidade social é hipocrisia, dizia Fortunato.
Leon deu a partida em seu carro e enquanto subia o ziguezague da
Cândido Hartmann em direção a seu escritório, ficou imaginando que
história de vida teria aquela figura extraordinária do Fortunato. Quem
seria seu grande amor. Ou ele nunca teria vivera uma grande paixão...
E de onde armazenou tamanha sabedoria e conhecimento?
Chegou até o alto, lá pelas imediações do Colégio Senador Alencar
Guimarães, com o propósito de um dia, desvendar todos aqueles
mistérios que se escondiam por trás do filósofo do parque.
(22 de abril/2005)
CooJornal no 417
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
|
|