30/04/2005
Ano 8 - Número 418

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


A choupana de Augustim



 

Depois que Augustim terminou seu parco jantar na solidão de sua choupana, agachou-se diante da pequena estante de livros. Estante que, na verdade, era uma tábua longa, apoiada no chão batido e encostada na parede tosca. Livros aguardavam pacientes por seu toque, escolhidos a dedo, com a permissão de seus credores, quando aconteceu o despejo de sua própria casa, num tempo que deseja não mais lembrar.

Afastar-se do convívio humano se tornou ruptura desejada. O despejo: apenas o empurrão definitivo, aplaudido por sua alma em desencanto.

Aprendeu que nossa civilização, ávida por avanços tecnológicos, comerciais, científicos, tem um desejo profundo de convívio humano, porém, por razões absolutamente egoístas e profundamente práticas.

Eivado de uma hipocrisia dilacerante, o homem se ajoelha diante dos altares ou com temor do castigo, ou pela oportunidade que a igreja pode representar em seus negócios. Saúda efusivamente o vizinho, pela utilidade que ele poderá ter a qualquer hora imprevista. Visita o amigo, presenteia-o, leva a família, confessa sua amizade generosa, mas no fundo está empenhado em ampliar sua rede de relacionamentos, indispensável nos dias em que vivemos, para grandes e pequenos negócios. Apresenta-se para ocupar os cargos de comando político da sociedade, como o trabalhador idealista em benefício desinteressado dos seus, mas na verdade, busca sua satisfação pessoal indistinta. Para tanto, mergulha nas sombras do crime e da traição, para atingir seus execráveis objetivos pessoais, em detrimento absoluto de seus supostos representados. Não titubeia em utilizar-se dos instrumentos nobres da organização social, deturpando-os descaradamente para que sirvam somente a sua ganância desmedida.

Augustim puxa um dos livros pela lombada envelhecida. E o faz vagarosamente, cuidadosamente, respeitosamente. O pensamento se evapora nas entranhas de suas páginas. Um pequeno, mas indisfarçável tremor em suas mãos dispara simultaneamente ao mergulho de suas reflexões na política dos indivíduos organizados, que deixou para trás.

Viu todos os grandes e nobres conceitos serem transformados em meros produtos de mercado, mas lembra com tolerância, que a natureza humana é coerente com seu destino biologicamente competitivo.

Sua vida na choupana é meramente um estágio de acomodação e preparo. Não abominou a humanidade, abandonando-a para sempre no inferno em que está mergulhada. Acredita que existem duas espécies dentro de nossa espécie. Uma delas é sutil, etérea, mínima. Existe nos cantões iluminados da vida dita civilizada. É uma espécie que pensa fora da pedra imutável da satisfação humana, obtida pela conquista de riquezas a qualquer preço. Terá que ser garimpada diligentemente. Ela vive nas universidades e nas favelas, nos morros e nos lagos, nas fábricas e na ociosidade, na justiça e no crime. Há multidões de insatisfeitos solitários, que se recusam a utilizar os meios desta civilização para externar seu pensamento, suas idéias de transformação autêntica. Estão desgraçadamente decepcionados, desesperançados, avulsos.

Augustim espera na choupana, mesmo que provisória e absolutamente solitário. Tem certeza que um dia, os ventos ainda serão favoráveis.
 

(30 de abril/2005)
CooJornal no 418


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br