21/05/2005
Ano 8 - Número 421

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  


O motel do aposentado



 

– Bem que te avisei pra não fazer aquele empréstimo! Agora tá aí o problema, Zé!

– Mas que foi bom, foi. Não foi, nêga? Veja só esse rometíate aí. É de lascar, hein?

– Só que agora não temos mais como pagar essa porcaria e o Banco vai vir em cima da gente...

– É, mas nos idos de 2005, você não falou nada quando cheguei com aquela bolada e joguei tudo na mesa... Você lembra o que foi que disse?

– ...

– Não fique aí quieta, fingindo que não!

– ...

– Eu lembro muito bem! Quer que eu diga, quer?

– Tá bom! Eu disse que queria ir... ah, deixa pra lá. Você sabe que eu tinha curiosidade. Nunca tinha entrado num lugar desses...

– E você gostou tanto que repetimos umas dez vezes nesses três anos... Acha que o dinheiro veio de onde?

– Por falar nisso, estou com uma vontade danada de ir lá de novo...

– Tá vendo? E fica aí me condenando... Eu sei de um novo que abriu lá na estrada das praias... E um outro que abriu aqui em Curitiba. Acho que em Santa Felicidade.

– A gente podia ir almoçar lá no domingo e esticava a tarde inteira naquela cama redonda.

– Nunca vi como você fica safadinha quando vamos lá. Nem parece você mesma...

– E você fica tão à vontade... Desconfio que já andou nesses lugares antes.

– ...

– Não fique aí quieto, fingindo que não!

– ...

– Quero saber com quem que você já foi lá. Com quem, Zé?

– Pare com isso, nêga! Só fui fazer um serviço de pedreiro, ora essa!

– Ah, é? E como é que você sabe que abriu um motel novo em Santa Felicidade?

– ...

– Estou esperando... Foi com a mesma, é? Quem é essa... essa... sirigaita?

– ...

– Vamos! Depressinha!

– Isso nem interessa mais...

– Engraçadinho! Mas se descubro, você vai ver com quantos paus se faz uma da boa!

– Uma canoa, nêga! Canoa!

– Patroa? Então, seu miserável, você foi lá com a patroa? Aquela perua?

– Tá sonhando, nêga? Que patroa? Não tenho patroa, pô! Sou aposentado, lembra?

Eu só corrigi a besteira que você falou. Esse negócio de com quantos paus se faz uma patroa...

– O quê? Pau na patroa? Então é isso?

– Sua burra! Estou dizendo que a frase certa é: ...com quantos paus se faz uma canoa e você disse com quantos paus se faz uma patroa... não... uma...

– O que interessa é como vamos fazer agora, Zé! Você fica aí, revirando essa carta do banco, mas tá tudo bem claro. Ou paga, ou se ferra!

– É simples, nêga! Agora você vai a um outro banco e pega lá mais uma bolada dessas em seu nome. A gente paga as “prestação atrasada” de meu empréstimo e fazemos mais uma farra. Que tal?

– Não seja burro, Zé... O governo mudou...

– Burro? Burra é você!

– Zé! Acorda, Zé!

– O que foi?

– Acho bom a gente ir embora. Sua nêga vai acabar desconfiando aqui da patroa. Além disso, daqui a pouco a diária do motel vai dobrar...
 

(21 de maio/2005)
CooJornal no 421


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br