04/06/2005
Ano 8 - Número 422

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Gaudiano, o diabo




 

Quando o pobre do Gaudiano abriu os olhos para o mundo, não foi logo que nasceu e sim quando chegou à maioridade. Olhou demoradamente para a vila Parolim, imaginando que tudo era mesmo um inferno.

Na época que, ainda pequeno, freqüentou a catequese, ouviu entre incrédulo e admirado, uma professorinha entusiasmada com o céu e assustada com o inferno. Ela vendia os lotes do paraíso para uma platéia atônita no mesmo tom que ameaçava com o fogo eterno a todos os estarrecidos pimpolhos.

Gaudiano gostava das aulas de catecismo, mas era para olhar as pernas tentadoras da catequista e depois, à noite, sozinho no banheiro, ficar, digamos, recordando com deleite as aulas de religião.

A história de paraíso e inferno, além das pernas da doce e jovem carola, foi a única coisa que sobrou para Gaudiano daqueles tempos de perplexidade e penúria. Chegada a hora trágica de abrir os olhos, percebeu que perdera o pai numa noite de berros e tapas com a mãe. Aos socos e ponta-pés, seu progenitor deixou o barraco, a vila, Curitiba e se mandou... Gaudiano nunca mais o viu.

No mesmo dia, percebeu ter extraviado também a mãe, que se dedicou à prostituição ali na vila mesmo, sob seus olhos abobalhados. Ela não escolheu a profissão porque, coitada, era a única saída. Carente, escolheu aquela atividade porque era estimulante, prazerosa e ainda por cima, podia ganhar algum.

Gaudiano, por razões que a própria desconhece, começou a pensar. E pensando, percebeu que o inferno da professorinha era ali mesmo na vila. Descobriu que, mesmo no inferno, poderia haver um canto mais fresco, nem que para isto precisasse corromper o capeta. Só precisava saber onde o desgraçado morava, se é que morava em algum lugar.

Esta foi uma idéia que martelou dentro de sua cabeça desde os tempos da catequese. Pensava em como era boa a vida do diabo, chefiando o inferno. Deveria ser legal comandar aquele fogo todo e dar aquelas gargalhadas enquanto a turma ficava se queimando eternamente sem morrer. Concluiu que o inferno era bom demais para o diabo. E quem ousa negar que o diabo gosta do inferno? Se não gostasse, teria acabado com ele. Ao contrário, parece que abriu filiais, ou até franquias neste mundo todo.

Diabo – continuava pensando Gaudiano – como qualquer chefe, precisa de auxiliares e os auxiliares terão um naco de poder, de conforto e poderão ter catequistas sempre por perto.

Por estas e por outras, Gaudiano queria a todo custo se candidatar a auxiliar do demo. Cargo que no paraíso também deve existir, pois afinal, lá também tem chefe.

A cabeça de Gaudiano se encheu com uma conclusão entusiástica: paraíso ou inferno, deus ou diabo, pouco importava. Se não desse para ser deus, nem diabo, já que estes cargos estão diabólica e divinamente ocupados para todo o sempre, rigorosamente nesta inversa ordem, daria ao menos para pleitear um segundo escalão. E terá que ser com o diabo, já que o inferno ele conhece desde criancinha.
Daquele dia em diante, todas as energias de Gaudiano foram canalizadas para descobrir onde morava o diabo. A gente consegue ver Gaudiano andando por todos os bairros de Curitiba nesta busca. Anda também, pelo Paraná inteiro. Dizem, os que o conhecem mais de perto, que agora está planejando ir a Brasília, onde os diabos abundam...

E é exatamente este o dilema de Gaudiano: há diabos demais.

Se em Brasília não conseguir identificar o chefe, ficará definitivamente confirmada sua suspeita: o verdadeiro diabo é ele próprio e está cheio de planos na cabeça.
 

(04 de junho/2005)
CooJornal no 422


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br