11/06/2005
Ano 8 - Número 424

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



OS CHORÕES DA REPÚBLICA


 

– O que é essa sujeira aqui em volta?
– Você nunca tinha reparado nela?
– Está aí há muito tempo?
– Há muito tempo!
– Tem alguma coisa diferente hoje. Venho sempre aqui no centro. Sento-me todo o dia neste banco e nunca reparei nela.
– É porque hoje está cheirando!
– Outros dias, não cheira?
– Nem sempre!
– E o que é, afinal?
– É tica!
– Ética?
– Não, não disse ética, disse que é tica!
– Que tica?
– É tica, ora essa!
– Tem certeza que é tica?
– Sim, mas acho que é tica na ética!
– Como é que é tica na ética? Tá confuso, não?
– Não!
– Só, não?
– Só!
– Quem pôs tica na ética?
– Os chorões!
– Eu gosto dos chorões, eles dão uma sombra maravilhosa. Conhece a rua do rio? Lá está cheio de chorões. Bonito! Os galhos escorrem para baixo como lágrimas... Lindo! Mas tem poucos pássaros nos chorões. Nunca vi se debaixo deles, o que tem é tica!
– Não falo dos chorões do rio!
– Não?
– Não!
– De quais?
– Dos outros!
– Ah! Entendi!
– O quê?
– Aqueles chorões que o que mais produzem é tica! Certo?
– Certo!
– Eles pensam que é ética, mas é tica!
– Você viu?
– O quê?
– Os chorões...
– Vi um!
– Eu vejo muitos...
– Onde?
– Onde o que mais tem é tica...
– Tá cheirando mal, né mesmo?
– Nem começou... Tchau!
– Tchau!
 

(11 de junho/2005)
CooJornal no 424


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br