18/06/2005
Ano 8 - Número 425

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Os bombons de Joceu

 

Joceu descobriu as delícias da corrupção no primeiro dia de aula no jardim de infância, lá no bairro do Seminário. Naquela época, Curitiba ainda tinha ares inocentes e ele, quatro anos de idade. Foi o único que não chorou ao se despedir dos pais no portão. Ao contrário, sentiu-se no céu, apesar de já desconfiar que céu era pura bobagem.

Quando a doce professorinha distribuiu um papel branco e mandou que todos desenhassem qualquer coisa, ele ficou olhando para Delábia, a coleguinha ao lado. A menina parecia boboca. Trocava o lápis de cor a cada segundo. Fazia um risco, trocava. Fazia mais um, e trocava. Joceu achou o desenho uma droga.

Olhou para sua folha em branco, depois para a caixa de lápis de cor. Sentiu uma preguiça imensa de começar qualquer coisa. Tirou um bombom que fazia parte de seu lanche e pôs na mesa da Delábia. Piscou um olho com uma dificuldade imensa, já que precisou entortar toda a boca. Ela sorriu. Colocou seu papel na carteira dela e disse: faz pra mim? Ela fez.

Depois de alguns minutos, Delábia devolveu o papel rabiscado. Joceu aplicou um inesperado beijo em sua boca. Demorou bastante, sentindo o gosto do bombom. Ela sentiu outro gosto... e gostou. A professorinha ficou escandalizada, muda. No fundo, algo se mexeu dentro dela. A contragosto, admitiu que gostou. Mas, por dever de ofício, correu até lá e eles se separaram. Um sorriso maroto sobrou nos lábios de Joceu. Encarou a professora, lambendo os beiços. Ela precisou desviar os olhos muito depressa.

Joceu perguntou para sua mãe se podia trocar o lanche inteiro só por bombons. Ela estranhou, mas acabou cedendo. No dia seguinte a professorinha foi a primeira a ganhar um bombom. Agradeceu com um beijo, dizendo que ele era muito gentil. Ele piscou daquele mesmo jeito que havia piscado para Delábia. Ela se desconsertou.

Uma carreira de preguiça, malandragem, assédio, enriquecimento fácil estava começando.

Essas lembranças todas Joceu tem agora, que está na quarta série, cresceu um bocado e já encontrou outras fontes de bombons, tanto para receber, quanto para dar. Na verdade, neste exato momento, está na ante-sala da diretora. Há uma fúria muito grande contra ele. A fúria vem de muitos colegas, de alguns professores, de uma porção de pais.

Ele está lá, esperando a vez de falar. Neste momento, começou a desconfiar que o inferno existe... ou o céu. Quando saiu da sala, ameaçou aqueles que o denunciaram para a diretora. Ameaçou até a professora. Foi um grande bafafá. Muitos já estavam chorando, porque não teriam mais bombons. A professora estava apreensiva porque ele poderia contar para a diretora muitas mentiras a seu respeito. Como, por exemplo, “inventar” tê-lo beijado na boca no dia em que ele saiu da sala, dizendo ir ao banheiro, e ela tê-lo seguido. Mas ela acha que estas coisas ele não tem coragem de contar. Ou será que tem?
 

(18 de junho/2005)
CooJornal no 425


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br