25/06/2005
Ano 8 - Número 426

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Apenas dois inocentes

 

Alam e Patete entraram nesta história sem dever nada. Tornaram-se protagonistas maiores quando os destinos da nação foram conspurcados por ninguém menos que seus representantes legitimamente eleitos.

O país está em polvorosa e os salteadores tentam se explicar, incriminando cinicamente os dois.

As vítimas lançam mão de suas biografias ilibadas para mostrar que nunca agiram fora das normas. Utilizam sua história de serviços prestados de forma voluntária, sem nunca ter recebido qualquer benesse em retribuição. Sempre cumpriram suas missões caladas, felizes pelo trabalho bom que realizam.

Injustamente, foram envolvidos nos processos do Ministério Público, nas Comissões Parlamentares de Inquérito, nos interrogatórios da Polícia Federal. Seus nomes estavam lá, dezenas, senão centenas de vezes, nos textos obscuros dos autos. Não que as acusações fossem diretas, mas o dedo em riste apontava para eles como veículos da lama, da corrupção desenfreada causada por gente de segunda, terceira, quarta, enésima linha, que se enfileirou no poder apenas para se locupletar com fortunas, ou se envaidecer com nacos de poder cada vez maiores.

Coitados! Os dois estavam acuados. Mesmo imaculados pela própria natureza, tiveram que se defender.

Alam, na verdade, era feminino desde que nascera. Patete, apelido que sugeria ao menos avisado ser mulher, era masculino e o mais velho. Tinha sua história ligada às magias das mil e uma noites. Sobreviveu aos séculos. Nascido nos confins dos tempos, entretanto, não foi afetado pela tecnologia avassaladora da era da informática, dos celulares, dos gravadores, das filmadoras e da falta de caráter. Talvez, por ter resistido incólume a tudo isto, tenha sido usado, é usado e, agora, réu. O primeiro, mais moço, ou moça, tem sua história ligada à da própria humanidade. O segundo manteve-se fiel a sua origem. Tem sua missão intacta, sempre dentro dos mesmos padrões.

Agora, porém, tudo está mudando. Ambos são responsabilizados por todos os males deste país que sofre e ri; que ri e sofre; que sobrevive aos solavancos de bandidos risonhos que se proliferam como praga e tomam conta de seu destino. Terão que declarar abertamente quem são, para salvar suas reputações, suas histórias e apontar os verdadeiros canalhas. Afinal, são apenas dois inocentes, vítimas do desespero dos corruptos, dos ladrões que assaltaram a nação ingênua, esperançosamente ingênua, decepcionadamente ingênua.

A única saída: divulgar suas identidades! Só assim, escaparão da condenação injusta, armada apenas para livrar os facínoras que passeiam camuflados de heróis, aproveitadores da inocência de um povo bom, mas desrespeitado.

Chegou a hora de Alam e Patete se apresentarem por inteiro. Fazem isto em rede nacional de televisão, no meio da novela mais empulhadora, no horário mais nobre, embora desprovido de qualquer nobreza. A audiência é plena em todas as classes, incluídas e excluídas.

Algemados, ambos estão sentados lado a lado. Cabeças erguidas. Ao pronunciarem seus nomes de nascimento, os falsos imaculados desmoronarão. O grande líder revelará seus pés de barro e sua reputação se dissolverá em pelotas mal-cheirosas. A expectativa pára a nação. Um silêncio aterrador cobre o país de norte a sul, de leste a oeste. Alam e Patete reafirmam que, na realidade, nada têm a ver com todos estes crimes. São apenas serviçais obedientes. Alam carrega o que entulham em suas entranhas. Patete se esforça por agüentar o que botam por baixo de seu corpo fino.

A partir de então, ninguém mais poderá culpar estes dois, que passaram a se chamar por seus verdadeiros nomes: Mala e Tapete.

 

(25 de junho/2005)
CooJornal no 426


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br