02/07/2005
Ano 8 - Número 427
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Calma, Vergueiro!
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Pacífico disse, com muita convicção, para ninguém se preocupar com
essa barafunda que está acontecendo por aí. Vergueiro, ao contrário, é
sujeito ansioso, inquieto de nascença. A cada nova denúncia, a cada
novo pronunciamento, a cada novo indício que pinta nos jornais, nas
emissoras, nos corredores, na rua, cresce dentro dele a indignação, a
revolta, o ódio. Seu corpo treme, sua voz enrouquece, seus olhos
chispam faíscas, sua fala perde a lógica. Veias saltam pulsantes pelo
pescoço. Vergueiro sofre!
Vergueiro ama a ordem, a decência, a correção, a lealdade, o respeito,
a dignidade, a competência, a verdade.
A cada dia que passa, vê o governo, que ajudou a eleger, degradar-se
mais e mais. Vê seu ídolo desmanchar-se aos poucos, derretendo-se
entre arrogância e infantilidades. Vergueiro precisa fazer alguma
coisa. E tem que ser algo muito forte. Algo que abale as estruturas
putrefatas que mal sustentam as colunas do palácio.
Pacífico, por sua vez, pede calma: o que terá que ser, será, como
cantava Doris Day nos tempos áureos em que facínoras não eram
covardes. Tempos em que bandido encarava o mocinho em igualdade de
condições no duelo entre o bem e o mal.
Hoje, o bandoleiro se camufla com as fantasias mais absurdas de bom
moço. Empoleira-se nas varas do poder e usa a ingenuidade de um povo
desarvorado que trabalha dia e noite para sustentar a luxúria e a
incúria, a ganância e a ignorância, a incompetência e a inapetência de
seus representantes-bandidos.
Onde está o mocinho que não vem redimir este povo cansado, atordoado,
roubado, enganado? Enquanto o salteador se traveste, o povo se
desveste e procura o rei vestido que está nu. Um rei que se esconde na
mentira da fala, do gesto, do olhar, da intenção, da alma e se esconde
no discurso teatral, ilógico, abobalhado, fraudulento.
Onde está o mocinho que ficará indignado com as malas de dinheiro,
viajando lépidas e soltas em busca de mãos sujas e avarentas? Mãos
agora flagradas em carícias aos pacotes timbrados. Mãos cujos donos
tramam nos bastidores escuros nova manobra safada, confiantes no
engodo fácil, contando com a simplicidade analfabeta das gentes
afastadas criminosamente da instrução e da informação, acostumadas
apenas na crença da palavra sagrada, dita uma só vez e eivada sempre
de verdade santa. Onde está ele?
Pacífico sorri o sorriso dos sábios e pede a Vergueiro que aquiete sua
alma em chamas. A história se encarregará do acerto de contas, diz
ele. Não será preciso Vergueiro vergar as torres dos palácios. Elas
cairão sozinhas. Que ele tenha a paciência dos profetas e a fé dos
sacerdotes.
O mau cheiro já ultrapassa as fímbrias dos tapetes luxuosos que
ensaiam a maior greve da história. Recusam-se, finalmente, a ocultar a
gosma escura que fede nos corredores intocáveis do poder espúrio,
porque advindo da fraude contra a esperança, da dissimulação contra a
confiança, da fanfarronice contra a fé.
Mas quem há de saber o que Vergueiro realmente fará? Vergueiro é o
mocinho que vai cavalgar pela planície e galgar os montes do planalto.
Vai encarar os bandidos que subiram a rampa e agora escorregam nos
próprios excrementos, ladeira abaixo. O cavalo relincha alto.
Vergueiro pula rápido no lombo sem cela. O galope ecoa no asfalto
negro e encobre o grito de Pacífico que inutilmente pede calma.
(02 de julho/2005)
CooJornal no 427
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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