09/07/2005
Ano 8 - Número 428
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
APESAR DE TUDO, SORRIA!
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Hoje amanheci com um certo torpor pelo corpo. Sentei-me aqui,
encarando uma tela branca, com o problema que todo cronista enfrenta
mais dia menos dia. Pensei que nosso mundo caótico bem que poderia ser
esta tela branca. Começaríamos a desenhá-lo novamente. Com outro
lápis. Com outras cores. Com outros engenheiros. Com outros...
Mas nada disso é verdadeiro. A verdade é que a tela está branca. O
mundo não. Está sujo e me mostra, insolente, o que as pessoas fazem
sem se esconder. Imagino o que fazem escondidas...
Quando menino, via cores maravilhosas, sentia cheiros inebriantes.
Depois, tudo desapareceu sorrateiramente. Tentaram solapar meus
sonhos. E que sonhos podia ter um menino? Sonhos simples: ver pessoas
felizes, ver o lado bom de todos. Gente disposta para a verdade, para
o bem.
Pois é! Concordo! Era um sonho infantil demais. O mundo traiu minha
ingenuidade.
Lembro-me de um único crime ocorrido na minha infância. Estremeceu a
cidade ainda pequena. A prisão foi incontinenti. O assunto durou anos.
Nunca mais voltou a acontecer enquanto não cresci e parti.
Hoje, vejo o desfile de criminosos dando entrevistas, ocupando os mais
altos cargos da nação apodrecida. Olho minha tela branca. Tela
inocente, pura. Agora já não mais tão branca. Talvez ainda inocente.
Aquele torpor pelo corpo continua.
Faço um retrospecto. Já escrevi tanto. Disse de todas as amarguras que
me assolam. Disse do mundo que deveríamos querer e do mundo que temos.
Parece que esse mundo melhor que queremos é vontade de pequena
minoria. Caso contrário, se somos a maioria, que minoria é essa outra
que consegue prevalecer sobre todas as coisas?
Silvio Brito, certa vez, cantou para quem quis ouvir: “Pare o mundo
que eu quero descer”. O mundo não parou. Não vai parar. Jogaram-nos
aqui como passageiros da agonia. Temos que fazer esta viagem até o
final.
E você que me leu até aqui, está louco de vontade de parar, cansado
que está de pessimismo. Também quis parar de escrever...
Fui lá para fora. Dei mais uma olhadinha neste mundo de Deus, perdido
nesta galáxia escondida. Meus pensamentos foram bruscamente
interrompidos pela menina no parque em frente. Calçava um chinelo
surrado, sujo. Seus calcanhares deviam ser lisos e sedosos. Não! Eram
ásperos, rachados como os de uma velha abandonada. Cabelos
desgrenhados. Rosto imundo de nascença. Uma veste indefinida. Talvez
tivesse sido alhures um vestido de festa.
Aproximava-se de pessoa por pessoa. Mãos nas costas, corpo franzino,
balançava-se numa dança ritmada, sem música. Erguia a cabecinha
infantil e dizia alguma coisa. Olhavam-na por um momento. Quem sabe
repetiam: “Onde está o governo que não cuida de nossos problemas
sociais?” Outros a ignoravam, até que desistisse.
Aí, aconteceu! Parou por um momento e, lá de longe, sem querer, seu
olhar atingiu o meu. Percebeu que eu a examinava. Tirou o dedo da
boca. Abriu um sorriso incrível e tudo se transformou naquele momento.
Era um sorriso de felicidade. Que felicidade podia ter aquela
criatura, meu Deus? Foi o que me perguntei. Mas estava ali, na minha
frente, aquele sorriso imenso. Olhinhos apertados, brilhando pra mim.
Estávamos tão longe um do outro, mas nos encontramos.
Por que sorriu daquele jeito? Acho que sabia o que eu pensava. O
torpor do corpo que levantou comigo desapareceu. Voltei para esta tela
branca, arrependido de não ter levantado hoje com um sorriso para o
mundo, apesar de tudo.
(09 de julho/2005)
CooJornal no 428
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro “Vim te contar vinte contos”
airo@protexto.com.br
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