16/07/2005
Ano 8 - Número 429
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
A
carreira de Lalo
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Morando na Barreirinha, um bairro tradicional de Curitiba, Pandoste
implorou por um apelido. Recebeu diversos em sua infância, mas todos
eram piores que o original. Ter o nome de Pandoste o transformou num
revoltado e depois num vingativo.
Não era muito corajoso. Assim, suas vinganças eram sorrateiras,
camufladas. Instigava colegas com mentiras bem arquitetadas para que
agissem em seu favor. E vingava-se, desta maneira, por qualquer
bobagem, qualquer palavra que considerasse ofensiva, qualquer fantasma
que sua imaginação criava. Desconfiava sempre ser motivo de chacota ou
desprezo.
Quando foi contratado pelo Banco Comercial do Paraná, na velha Rua
Quinze, proximidades da Confeitaria Schaffer, resolveu, ele mesmo,
dar-se um apelido que fosse legal. Afinal, nome novo, vida nova!
Desde o primeiro dia, virou Lalo. Achou sonoro, bonito.
Principalmente, afastaria definitivamente o Pandoste, ou Pando, ou
Doste, que alguns, sarcasticamente, mudavam para “Boste”...
A imagem que Pandoste possuía não o agradava. Era imagem de covarde,
preguiçoso, encostado, burro. Mudou alguns gestos e comportamentos.
Ensaiou atitudes doces, cativantes, envolventes. Treinou um olhar
inteligente. E tudo funcionou muito bem. Chamavam-no o tempo todo, por
qualquer bobagem. Era Lalo pra cá, Lalo pra lá.
Foi se projetando no Banco. Conquistou chefias. Virou o “Senhor Lalo”.
No fundo, porém, o velho Pandoste teimava em aparecer e a máscara de
gestos ensaiados caía, detectada por alguns poucos, mas perspicazes,
observadores. Estes eram sempre os primeiros que Lalo desmoralizava,
mobilizando as amizades novas e seus admiradores para a consecução de
suas vinganças. Qualquer denúncia se transformava em mentira e o autor
em invejoso. Assim, sua fama afogava qualquer tentativa de fazê-lo
novamente Pandoste.
Todas as manhãs, Lalo demorava-se no espelho, montando sua anteface.
Era tarefa que não poderia esquecer. Não poderia jamais correr o risco
de sair sem ela. Seria um desastre.
Tornou-se mestre em máscaras. Arrebanhou para si muitos adeptos,
formalizou sua confraria. Seus discípulos aprenderam a arte da
hipocrisia, a técnica da frasqueta e as estratégias para remover
obstáculos. Cresceu o número de companheiros. Expandiu-se sua fama.
Atravessando os balcões do banco, alastrou-se por outras instituições.
A fala envolvente, bem treinada, era sua arma mais poderosa. Os
clientes queriam mais falar com Lalo que com o gerente que tentou se
vingar de Lalo, mas foi desmoralizado pelas armações infalíveis de
seus adeptos.
Assim, Lalo foi avançando pela vida. Deixou o banco no momento em que
sua fama e carisma já permitiam um sustento nababesco sem trabalhar.
Seus confrades o transformaram em valioso troféu.
Mas houve um dia. Triste dia aquele. Não dormira bem. Pesadelos
sacudiram suas entranhas. Um tormento desconhecido perturbou sua
cabeça. Olhou o relógio e percebeu que estava atrasado para uma
reunião na confraria. Reunião importante. Uma grande assembléia o
esperava. Havia gente de todas as plagas.
Saiu apressado.
Ao entrar no auditório lotado, ouviu expressões de espanto
coletivamente audíveis. Colocou as mãos no rosto e sentiu o gelo
espalhar-se pelo estômago, irradiando-se pelo corpo todo.
Esquecera a máscara!
Seguiu-se um calor dos infernos a avermelhar sua cara nua. Antes de
pronunciar a primeira palavra de justificativa, a multidão se levantou
e saiu, revoltada com o que via.
A boca ficou ligeiramente aberta. A sílaba caiu sobre a gravata
finíssima, escorregou pelo tobogã da barriga cheia e se perdeu, muda,
no chão encharcado de suor.
Descortinou-se a verdade imutável: Lalo não era Lalo. Era novamente “o
Boste”.
(16 de julho/2005)
CooJornal no 429
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Bichos do Poder”
airo@protexto.com.br
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