23/07/2005
Ano 9 - Número 434

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



ONDE ESTÁ MEU PAÍS?


 

Não sei qual a razão empírica que, intempestiva, me assalta neste dia de inverno, impondo esta pergunta incômoda. Talvez seja a clausura que me impus alhures, empurrado pelo mergulho interminável nos afazeres do mundo. Certo é que se trata de uma clausura light, se é que isso existe em tempos de pedofilia eclesiástica.

Tenho, contudo, andado pelas ruas. Um andar descomprometido com meus deveres antigos. Uma passagem rápida pelas esquinas congestionadas de misérias ambulantes, plenas de falsos trabalhadores em busca de doações fáceis. Poluída de malabaristas improvisados, no desespero da sobrevivência estúpida.

Voltei a prestar atenção a minha cidade. Olhá-la em seus detalhes. Admirá-la em seus contornos. Aspirar seu aroma. Ouvir sua música. Confesso não ter gostado do que, repentinamente, vi, aspirei, ouvi. Confesso no sentido profano, já que confissão ao padre nosso de cada dia se tornou ato arriscado, cada vez mais restrito a uma confraria em extinção progressiva.

Num lapso efêmero de falsas férias, volto a examinar este aglomerado urbano, com olhos de cidadão inconformado.

A cidade está desgastada, desumanizada, envelhecida. Perdeu seus encantos juvenis.

Tentei meu antigo bairro, hoje promiscuamente colado ao centro. Foi onde arquitetei os grandes planos do futuro que hoje já é passado longínquo. Não consegui matar as saudades, pois desfigurado está em seu íntimo e em sua embalagem.

Flertei meu sonho ousado com minha cidade antiga, mas hoje ela não tem mais tempo, acossada que está por uma perseguição infame.

Vi suas artérias, aonde o sangue corria tranqüilo, oxigenando a musa do passado, tomadas agora por escleroses venosas, venenosas, angustiadas com os pedintes mentirosos de todas as horas, com a guerrilha interminável dos assaltos intempestivos, com os seqüestros instantâneos em tempo de cartões magnéticos egoístas, usurpando todo o magnetismo solto de outrora.

Minha paixão ficou frustrada. Minha cidade-namorada não prestou atenção neste escriba teimoso. Não teve tempo de piscar seu olho direito como fazia com ares maliciosos. Nem mostrou o sorriso tentador a me convidar para suas intimidades divertidas.

Tudo foi perdido. Não tive tempo de me adaptar a sua indiferença, nem à mágoa que me aperta o peito. Precisei voltar em desabalada carreira para a clausura voluntária, longe dos altares libidinosos.

Tentei parar na igreja matriz. Não me repreenda por esta palavra antiga. Está bem, ora essa! Que seja então, catedral. Catedral de nosso recolhimento. Não tive coragem de entrar. Por que entrar? Ali não mais encontraria o sussurro do canto gregoriano mergulhado em penumbra misteriosa, verdadeiro mantra a massagear os pensamentos, acomodando-os em seus encaixes.

Só restou esta pergunta incômoda: onde está minha cidade?

Inserida em meu país? Mas, onde está meu país que guarda minha cidade? Um assalto silencioso, matreiro, foi se realizando aos poucos e ele desapareceu nos meandros das safadezas inomináveis, tomado pelos vadios espertos, travestidos de estadistas acostumados com a mentira estampada em seus olhares cínicos.

Quero de volta meu país! Quero de volta minha cidade!

 

(23 de julho/2005)
CooJornal no 434


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Bichos do Poder” e "As Muletas do Governador"
airo@protexto.com.br