
30/07/2005
Ano 9 - Número 435
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Ah, se este povo
soubesse!
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Ah, se este povo soubesse o que se passa nos palácios! Veria coisas
estarrecedoras. Descobriria que frestas falsas foram criadas com o
cenário róseo da falsa decência. É por elas que o povo espia, vê
assombrado as virtudes dançarem como ninfas etéreas. E fica
maravilhado com a luz que ilumina seus líderes. Mas este povo não pode
saber disso. Precisa se ocupar de outros afazeres. Precisa sobreviver,
suar, chorar, morrer, procriar, sofrer sem parar. Não pode ter tempo
para espiar pelas frestas verdadeiras dos madraçais.
Ah, se este povo espiasse pelas frestas verdadeiras! Cairia em
depressão profunda. Descobriria a verdadeira face dos príncipes.
Enxergaria os tridentes reluzentes nas mãos dos soberanos da
república. Assistiria a reuniões inimagináveis de bandidos brigando
pela partilha. Ouviria as casquinadas de escárnio. Perceberia as
maquinações satânicas para driblar sua alfabetização eternamente
adiada.
Não! O povo não pode espiar os serralhos. Deve se manter com pés,
pernas e cabeças afundadas nos problemas do dia-a-dia. Por isto, é
preciso aumentar estes problemas. Desviar os súditos dos sonhos
possíveis. Tirar deles todos os miseráveis tostões. Deixá-los à
míngua. Eles devem curvar o corpo sob o peso dos malandros fingidos e,
vergando o lombo, inclinar a cabeça para baixo, sempre para baixo.
Devem ser forçados a olhar apenas o chão lamacento, sem horizontes
róseos. Para eles, apenas o marrom é suficiente.
E quando ficarem excessivamente deprimidos, semear-se-á a esperança de
grandes conquistas futuras. Em discursos inflamados, o escolhido dará
fôlego extra a este povo. Dirá que todos se transformarão em nobres
abastados depois de sofrer só mais um pouco. Dirá que ele é o melhor
de todos, e será eleito para conduzir às grandes vitórias populares. E
eles acreditarão piamente!
Mas, há tanto tempo, herdeiros antigos e seus asseclas foram depostos!
O palácio tinha sido lavado com a água dos pobres. Não tinha? Mas
agora um novo príncipe aparece na multidão. Executa um plano
maquiavélico. Agita o povo sofrido, mostra o caminho das injustiças.
Indica como chegar na abastança. Abraça o povo miseravelmente
analfabeto e inocente. O abraço que cativa e prende e aproveita e usa
e conquista e engana. Assim, subiu as escadarias suntuosas revestidas
de preciosidades brasileiras. Subiu a rampa assustadora para se
declarar príncipe.
Lá dentro, surpreendeu-se com um tesouro infinito a sua disposição e
submissão. Ficou embevecido. Quis tudo novo! Convidou os amigos novos.
Comprou novas vestes riquíssimas, novas jóias. Novas pinturas em
molduras bregas. Livrou-se das obras de arte, velharia obsoleta.
Transformou bibliotecas em churrasqueiras. Trocou a cultura pela
bobagem e ficou feliz. Ri todos os dias, o riso bobo dos que trazem
dentro da alma pobre e malandra a ilusão sobre si mesmo. Mas é preciso
lembrar da origem, tão útil para se sustentar nos píncaros da riqueza.
A lembrança da origem distante o faz lembrar do povo. Acenou de longe
para eles que pareciam impacientes. Lembrou-os, enfático, que ele
também é plebe, é vítima, é excluído. Diz com a voz embargada,
expulsando lágrimas sentidas por olhos vermelhos de novas orgias. E
reconquista-os!
Viu brilharem em sua direção os olhos marejados do povo. Num primeiro
momento, sentiu-se um homem superior. Imaginou-se dotado de qualidades
inusitadas, únicas, só dele, de ninguém mais na face da Terra. Num
segundo momento, acreditou piamente que era mesmo um predestinado, que
era realmente especial, diferente, melhor que todos e merecia, mais
que ninguém, estar onde estava. Não desceria jamais a rampa. Ali, era
seu lugar definitivo.
Cercou-se dos prazeres, do gozo, da adulação servil. Promiscuiu-se e
aos seus nos festins do desdém e da zombaria, obcecado pela falsa
divindade que a tudo se permite, sem castigo, sem açoite, ao
contrário, com louvor e adoração.
Os ruídos de longe incomodaram os ouvidos reais. Fechou-se em seu
harém recém-criado!
Ah, se este povo soubesse o que se passa nos palácios!
(30 de julho/2005)
CooJornal no 435
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Bichos do Poder” e "As Muletas do Governador"
airo@protexto.com.br
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