06/08/2005
Ano 9 - Número 436

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Os patetas-bandidos


 

Antigamente eu me divertia muito com um seriado chamado “Os três patetas”. Mas o tempo foi apurando o gosto pela sétima arte. Recentemente, voltei a rever um episódio e me decepcionei profundamente. Não batia mais com as sensações retidas na lembrança. E isto já havia acontecido com alguns clássicos do passado. Ao revê-los hoje, não percebo o mesmo sabor, nem o mesmo impacto de outrora.

Hoje, outros filmes entram em nossas cabeças à revelia das vontades. São velhos, repetitivos, cansativos, desgastantes, desanimadores. Nós, os impotentes aqui da cávea, pagamos preços inimagináveis para estes atores que ocupam os jornais, as televisões, as emissoras de rádio, as conversas, absorvendo boa parte de nossa atenção e de nossa perplexidade. E perplexos estamos todos, independentemente de ideologia, religião, escolhas políticas, militâncias e quetais.

Que atores e escritores se dediquem à ficção, é esperado. E sempre, ou quase, o fazem com arte e maestria, deliciando o público. Mas estes espertalhões carcomidos de alma enrugada, travestidos de anjo da guarda e máscaras renovadas a cada nova eleição, nos enojam com suas mentiras arrogantes, grosseiras, desaforadas.

Não mais existe a direita e a esquerda. Existe o Planalto e a planície, o palco e o povo. O primeiro para assaltar, o segundo para ser assaltado com sorrisos e promessas. A platéia é estúpida. Paga impostos, pensando exercer a cidadania, mas na verdade, alimenta o crime contumaz dos desavergonhados que se encastelam nas torres de marfim.

Não são poucas as pessoas aqui da planície a questionar suas próprias consciências, sentindo-se culpadas por entregar seu dinheiro limpo e quente a um governo costumeiramente corrupto que o transforma em recursos frios e sujos, em propina, mensalão, desvios, malas, cuecas, veículos ostentatórios, aviões presidenciais de luxo ofensivo e sabe-se lá mais o que está escondido por baixo da rampa.

Aboletados no palco, com as mãos fedendo de seus próprios excrementos com os quais se acostumaram a lidar ao longo dos anos, emporcalham nosso dinheiro imaculado e suado. E agora, esticam suas rugas abjetas, inventando o sorriso dos santos para uma rabacuada cansada, que aos poucos vai deixando de ser estúpida.

Hoje, estamos diante de um absurdo dilema: continuar financiando a nobreza espúria de aproveitadores e sentirmos a consciência carregada, ou nos negarmos a isso para dormirmos tranqüilos, não sendo cúmplices dos criminosos.

Com que argumentos posso convencer meus filhos a cumprirem seus “deveres cívicos”, se eles me questionam com outro, de lógica absolutamente cartesiana? Sustentamos a máquina que serve ao crime, dizem eles. O que é mais ético? Financiar o crime, ou deixá-lo à míngua, até que os pilantras assaltantes da República sejam afastados definitivamente dos cofres públicos? Não há mais diferença entre o crime organizado e a organização criminosa que nos governa.

Misturaram bandidos e mocinhos. Coitados dos mocinhos, se é que ainda os há!

Estamos perplexos! É provável que não tenhamos mais ninguém em quem votar, até que se limpe a privada em que se transformou a vida pública.

Inocentes pagarão pelos pecadores, já que os culpados dominaram o proscênio. Que a maioria comete crimes lá no castelo, é voz corrente! Do presidente ao porteiro, todos já confessaram angelicamente, com a mais deslavada “cara-de-pau”. E nós aqui, mudos, ouvindo as declarações de culpa e as mentiras, perguntando uns aos outros: em quem votaremos nas próximas eleições? Vamos prosseguir no exercício da cidadania do voto para escolher qual bandido ou qual pateta queremos para nos governar? Claro que não! Queremos votar em honestos que não só pareçam honestos, mas que nos provem sua conduta, sem a camuflagem de máscaras construídas por marqueteiros eficientes, também literalmente criminosos.

Queremos votar em quem apresente um plano de trabalho realista e o cumpra até o ponto final. Sem shows, sem alegorias, sem orgias e festins. Queremos financiar um governo com a certeza de que os recursos que entregamos, vindo de nosso sangue e suor, vindo do norte e do sul, dos abastados e dos miseráveis, continuem limpos ao chegar às mãos dos governantes e de lá, retornem imaculados, cumprindo fielmente seu destino de justiça social.

Já não mais nos divertimos com “Os três patetas”, muito menos com esta multidão de patetas-bandidos que, ridículos e lastimáveis se empoleiraram em todos os poderes da República.

Uma pena!

 

(06 de agosto/2005)
CooJornal no 436


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Bichos do Poder” e "As Muletas do Governador"
airo@protexto.com.br