
20/08/2005
Ano 9 - Número 438
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Não nos subestimem!
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Eles se desnudaram diante de nossas caras perplexas! Desfilaram ante
câmeras e microfones. Mostraram a ignorância, o desprezo insistente
pelo saber. E o fizeram sem pejo, sem titubeios, sem franzir o cenho.
São, em sua maioria esmagadora, despreparados para qualquer coisa que
não seja atingir seus objetivos mesquinhos, pessoais, escuros e sujos
de um poder sem ideal, sem honra, sem méritos, sem educação.
Se esta crise que aí se implantou não mostrar alguma serventia mais
nobre, certamente jogou holofotes sobre a farra que se torna visível a
cada novo espetáculo transmitido ao vivo e a cores para quem tem
olhos, ouvidos e mente para ver, escutar e julgar.
Parece que vivemos uma onda de culto à ignorância, de envilecimento da
cultura, de glorificação à sacanagem. Agridem a língua, agridem a
inteligência e agridem nossas crenças. Mentem convictos, sem
disfarces, sem vergonha, sem preocupação de convencer ou não
convencer, sem mudarem a expressão do rosto a refletir almas
diabólicas, ambiciosamente corruptas e perdidas.
Assistindo a estes espetáculos deprimentes de repulsa aos estudos, aos
livros e aos valores fundamentais de nossa gente, percebemos que algo
deve ter ocorrido sem que percebêssemos aqui debaixo. Os poderes da
república não são mais amostra fiel de nosso povo. Nem mesmo amostra
aproximada. Já não nos representam e nem representam o que somos como
nação.
Eles são de outra cepa. São de outra matéria prima. São de outro
mundo. Aqui, na planície, o povo é trabalhador. Pobre ou rico, com ou
sem quotas, está sempre ávido por uma conquista acadêmica, quer se
preparar para a vida e pratica a honra, a verdade, o respeito, a
honestidade. Lá, o que vemos é um outro planeta. Eles se envaidecem
por não terem escola em seus currículos e se orgulham por desprezarem
a busca do conhecimento o tempo todo. Não se importam com a honra.
Cultuam a mentira como método. Desrespeitam a pátria e o povo. A
desonestidade é a prática do dia-a-dia.
Não! Eles não nos representam. Eles são o lado podre da república.
Como foi que isto aconteceu? Como é que ocuparam cargos de
representação, pessoas que nada têm de semelhante conosco?
É que eles estão sempre de tocaia. Enquanto nós mergulhamos na vida
com objetivos superiores como trabalhar diuturnamente e sobreviver com
dignidade, eles estão à espreita, refestelados em suas poltronas,
divertindo-se em suas festas suspeitas, transitando em seus carrões de
luxo extremo, juntando-se uns aos outros, apesar do fingimento de
ideologias-ferramentas, procurando formas antigas e novas de se
locupletarem a nossas custas. Eles não trabalham, não estudam, não
produzem nada. Aí é que está o nó a ser desatado. Nós não temos, mas
eles têm todo o tempo disponível para se sobressaírem da massa,
destacarem-se, empoleirarem-se nos cofres e saquear, com a aprovação
abjeta dos comparsas de qualquer cor. Eles fazem dinheiro sem
trabalho, sem leitura, sem esforço, porque é este seu escopo
permanente: ganhar dinheiro, nada mais.
Se lá, nos píncaros do poder, tivéssemos homens que nos representassem
de fato, teríamos uma mostra fiel desta nação sofrida. Teríamos
pessoas que dedicaram suas vidas a um trabalho produtivo. Pessoas que
passaram suas vidas junto aos livros, aperfeiçoando sua formação.
Pessoas que suaram suas testas e seus corpos no trabalho duro. Pessoas
que por falta de oportunidade não se formaram no tempo certo, mas
aproveitaram todas as brechas e todas as idades, sem esmorecimento, na
conquista de competência para uma profissão honrada e produtiva. Gente
sem preguiça que levanta de madrugada, sacode-se por horas imensas no
transporte coletivo e vai ao trabalho onde quer que ele esteja, vai à
faculdade pública ou particular, paga com o suor de seu rosto, do
rosto dos pais, dos avós. Se assim fosse, não teríamos lá,
encastelados, os falsos líderes a se blasonar eternamente de nunca
terem estudado nem trabalhado. Que glória é esta que nos impingem?
Isto nada tem a ver com nenhum de nós aqui da planície!
Aqui, temos um mundo de trabalho duro, de preparo árduo, da prática de
valores morais intocáveis. Aqui, temos um mundo de verdade e de brio.
Lá, temos um mundo de preguiça mole, de desdém ao esforço, de
imoralidade orgulhosa. Lá, temos um mundo de mentira e desonra a se
igualar, sem reparos, ao tradicional crime organizado que jamais se
derrota, inexplicavelmente. O que isto tem a ver conosco?
Aqui embaixo, entretanto, de forma silenciosa a seus ouvidos moucos, o
conhecimento, a cultura, a informação, o saber se alastram
silenciosamente. A cidadania cresce dentro de cada um de nós. A cada
novo dia, mais pessoas passam a “compreender” o que ocorre com nossos
pseudo-representantes. A cada novo dia se amplia a elite verdadeira a
se contrapor com a anti-elite do poleiro. A cada novo dia há mais
inteligência aqui embaixo e mais burrice lá em cima!
Não nos subestimem!
(20 de agosto/2005)
CooJornal no 438
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” a ser lançado no dia 15 de setembro.
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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