
27/08/2005
Ano 9 - Número 439
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
O choro das crianças
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Corre o ano de 2009.
Curitiba anda em silêncio.
Exageradamente envelhecido, o antigo e arrogante líder, o outrora
poderoso absoluto caminha pela Rua das Flores. Aborda os transeuntes,
na tentativa de que se disponham a aceitar sua proposta. São papéis
mal recortados por mãos trêmulas, impressos numa obsoleta matricial
que encontrara, certa vez, na Rua Marechal Floriano.
Numa lixeira.
Na esquina com a Avenida Barão do Rio Branco, face ao silêncio
sistemático dos passantes, senta-se na sarjeta.
Arrasado.
Com um pequeno galho seco juntado ali perto, cabisbaixo e derrotado,
remexe os ciscos perdidos em sua perdida divagação pelas fímbrias de
lembranças principescas.
Os transeuntes, num uníssono silêncio, parecem dizer: “Sai pra lá,
cara! Você já teve sua chance. Cai fora!”. Ouve e se cala. Submisso.
Mas insiste...
Pateticamente...
Numa saída de fábrica da Cidade Industrial, empoleirado num pedestal
improvisado, o mais importante ex-companheiro, agora mal escanhoado,
expulso de todas as instâncias, pronuncia, sozinho, o mesmo e surrado
discurso que empolgara os trabalhadores por muito tempo, o povo por
outro tanto. É a única oração que conhece e que agora provoca apenas
um silencioso riso irônico de quem sai ou chega para a troca de turno.
Ele insiste!
Pobre coitado!
Desce do caixote e corre atrás de um, depois de outro, querendo se
explicar, dizer que agora tudo será diferente...
É apenas um histrião abobalhado!
Volta ao caixote e continua sua fala para multidões imaginárias.
Em resposta, apenas silêncio!
Na escolinha do bairro Sítio Cercado, se aproxima o homem de antigas
grandes fortunas. Bate delicadamente. O porteiro o reconhece, apesar
da barba ausente. Atende-o calado. Nasce um sorriso de esperança: quer
uma vaga, deseja lecionar matemática. Mas a porta se fecha sem
educação.
Vira-se desolado.
Displicente, desce os degraus, arrastando as chinelas gastas. As
derrotas antigas buscam lágrimas interrompidas para as novas derrotas.
Engole-as.
No pátio, a meninada assiste à cena e ri. Ri despudoradamente, mas ri
sem um único som.
Ri sem piedade.
Ri tristemente.
Nas casas, o silêncio de perplexidade dura e perdura.
No povo, teima em não arrefecer, ano após ano, o silêncio do
estarrecimento e do choque.
Da decepção.
João vai até a pequena área nos fundos da casa. Vê o sol se pondo.
Seus olhos se perdem no minucioso exame do vermelho-fogo. Sabe que, em
breve, as estrelas prateadas estarão presentes. Maria se achega de
mansinho. Ele sente o toque delicado em seu ombro.
Vira-se.
Com mão calejada, acaricia a enorme e orgulhosa barriga de Maria.
Ele vai nascer... Depois do pôr-do-sol.
Outros tantos estão nascendo.
Finalmente, o choro coletivo das crianças novas quebrará o silêncio.
(27 de agosto/2005)
CooJornal no 439
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” a ser lançado no dia 15 de setembro.
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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