
03/09/2005
Ano 9 - Número 440
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
As perguntas de Fidêncio
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Caminhava nos limites do prometido eixo metropolitano de Curitiba,
esquecido momentaneamente dos incômodos que percorriam sua alma. E não
eram poucos.
O inverno, ameaçando encerrar sua estadia por estas bandas, se
enclausurava amedrontado, enquanto Fidêncio se detinha sob um dos Ipês
amarelos a margear a Fagundes Varela, florindo às escâncaras, dourando
o chão por onde qualquer um ousasse passar.
Obrigava-se, inapelavelmente, a parar ao pé de cada árvore. Era
compelido a apalpar o tronco enrugado, velho, escuro, bruto para
agradecer a beleza paradoxal que aquela feiúra imensa se atrevia a
expelir em suas pontas. Uma formosura que amainava os cutucões
plangentes de supostos floretes em prontidão alerta, estrategicamente
postados em volta de seu coração magoado.
Parou no alto da Avenida Nossa Senhora da Luz e vislumbrou, descida
abaixo, as duas carreiras amareladas de ramos incandescentes sob a luz
perdulária de um Sol esbanjador.
Sim, esquecido momentaneamente. Só momentaneamente. Nesta parada lá no
alto, as reflexões voltavam a martelar suas cavernas conhecidas. Uma
pergunta, das tantas a abarrotar seus arquivos, insistia toda vez que
olhava para a indisciplina das flores tartrazinantes: por que, do
tronco abrutalhado dos Ipês, é possível nascer espontaneamente a
beleza desmedida das flores, a inocência da perfeição, a pureza da
doação irrestrita, e, incompreensivelmente, das belezas da alma humana
brota a torpeza, a indignidade, a desvergonha, a impudicícia, o
desaforo, a feiúra absoluta da mentira?
Estava desgastadamente cansado, o Fidêncio. Perguntava-se por que as
crianças são capazes de gestos de entrega, de amparo incondicional a
um estranho que chora e o adulto caminha espargindo sarcasmo,
desfaçatez, indiferença, egoísmo e avareza? A avalanche de perguntas
não podia se deter na mente em furacão. Por que os governos amealham
recursos inimagináveis sob a proteção de leis impostas por eles
próprios e estes mesmos homens espoliados são os únicos a organizar e
realizar com eficiência, obras efetivamente meritórias?
Fidêncio se esforçava para ocupar, com flores e crianças, os espaços
das perguntas teimosamente importunas. Mas não conseguia: por que
existem miseráveis, abandonados, doentes, excluídos de todos os
matizes, mortos prematuros, se a sociedade que trabalha e produz
entrega aos governos quantias absurdas, suficientes para dar soluções,
com sobra espantosa, a todas as necessidades da vida humana?
E Fidêncio caminhava de volta aos limites do prometido eixo
metropolitano, afogado nos incômodos que percorriam sua alma. E eram
muitos. O inverno em fuga, contraditório, invadia sua alma em
sobressaltos. Olhava para trás, num adeus melancólico aos Ipês
dourados a forrar as calçadas, em despedida prematura, antes de
saudarem a chegada de uma primavera encabulada. Inquietava-se com a
falta de respostas. Suas angústias derramam o sangue do povo com as
estocadas desumanas, não de floretes, mas de sabres e espadas, como
torturadores treinados, estrategicamente postados em volta de seu
coração magoado, desesperançado, sem respostas.
(03 de setembro/2005)
CooJornal no 440
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” a ser lançado no dia 15 de setembro.
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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