
17/09/2005
Ano 9 - Número 442
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Acaso do ocaso
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Andaram descontraídos, atravessando a praça.
Mudos, examinavam o caminho, escolhendo pontos simétricos para apoiar
pés obedientes, refazendo a distração pueril recomposta pelo hábito
involuntário criado nas lacunas de uma infância extraviada.
Lembranças pipocavam nas cabeças.
Vontades abafadas de falar morriam solitárias, escorregando pelos
corpos, juntando-se aos pés distraídos.
Qualquer palavra imaginada escancarava inutilidade. Havia que se
deixar o silêncio invadi-los com hostilidade, ocupando, à força,
enormes espaços brancos a fustigar o conforto anímico por anos sem
fim.
Bem que poderiam franquear seus olhares, trocando as tempestades
mútuas que abafaram sonhos com a violência inevitável da realidade
patética de ambos. Mas o miserável do tempo já havia providenciado o
arquivo morto para as paixões desembestadas e amores ensurdecedores.
Nem um mísero sinal ousava importunar o curso da lógica, da realidade,
do óbvio.
Qual o motivo empírico daquele encontro casual, assustador, devastando
o interior até há pouco tão comodamente normalizado, calmo,
conformado?
Ele ia para o Norte.
Ela para o Sul.
O encontro tardio revirou as histórias. Não ousaram falar,
cumprimentar-se, dizer das saudades um do outro, expor angústias, nem
fazer todas aquelas bobagens próprias para reencontros de envelhecidas
memórias.
Não se deram as mãos.
Muito menos se beijaram.
Apenas viraram ambos para o Leste e saíram caminhando pela praça.
Juntos.
Braços roçando braços.
Esqueceram os destinos imediatos e não se importaram mais com o
destino presente, nem planejaram o destino futuro.
Uma certa santidade esvoaçava por perto.
O mundo haveria de enguiçar suas engrenagens, estancar o tempo por
respeito, abrir um novo horizonte por um átimo, deixá-los soltos,
reverenciá-los ao extremo, retirar de perto todos os fragmentos sujos,
dar pureza infinita à superfície daquela caminhada e deixar fluírem os
seres etéreos da mentirosa liberdade absoluta.
Aos poucos, aproximou-se o final da praça. O Leste se apagou
envergonhado. Desapareceu o destino improvisado.
Braços não mais se atritam.
Ela vira-se para o Sul.
Ele para o Norte.
(17 de setembro/2005)
CooJornal no 442
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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