
01/10/2005
Ano 9 - Número 444
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Beleza é fundamental!
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O Parque Barigui estava cheio, como sempre acontece nestes horários em
Curitiba. Na pista de caminhadas, um desfile de macérrimas, altas,
fruto de cuidada arquitetura, vestindo a última moda esportiva.
Empinavam narizes, mostrando-se estalão imbatível da beleza feminina
de nosso tempo.
Menos Marialva. Pequena estatura, também vestida com trajes esportivos
arrojados. Não se poderia dizer que fosse gorda, mas seu corpo era,
digamos, bem “cheinho”. O rosto não se assemelhava à matriz de
boniteza que se impingiu, mas seus olhos refletiam felicidade e
auto-estima abundantes. Seu nariz não estava arrogantemente a apontar
para cima. Apontava horizontes! Lábios esboçavam sorriso leve,
permanente. Puro eco do que se passava em seu interior.
Destacou-se na pequena multidão de beldades. Caminhava com suave
ondulação do corpo, tinha movimentos de braços e mãos
indescritivelmente harmônicos e mensageiros. Explodia sensualidade.
Quebrava paradigmas e atraía os olhares daqueles que se cansaram das
formas industrializadas por um poder tirânico que insiste em nos
submeter a uma plástica discutível.
Passei a deslizar o olhar para outras mulheres no parque. Baixas,
magras, gordas, negras, loiras, ruivas, pintadas, naturais, sérias,
sorridentes, apressadas, relaxadas, novas, velhas, maduras, jovens...
Vi que era possível me libertar dos estereótipos que entraram em nosso
senso estético pela porta dos fundos.
Rompi por um tempo com esta ditadura e uma beleza feminina nova,
abundante, passou a desfilar escancarada em minha frente. E essa
beleza existe além, muito além dos modelos construídos “na marra” por
regimes, plásticas, ginásticas maçantes e, principalmente, por ordem
de uma mídia interesseira e despótica.
A mulher brasileira é belíssima. Todas são. Quando Vinícius de Moraes
disse: “Desculpem-me as feias, mas a beleza é fundamental”, estava
certo, certíssimo. Mas a qual senso de feiúra ou a qual beleza se
referia? Certamente à da alma. É a alma que dá ao corpo feminino
gestuais divinos, linhas saborosas, satisfação imensa dos perfumes e
dos apelos. A beleza está solta, permeia a natureza. Não está nos
laboratórios. Industrializá-la é criar feiúra.
Vejo agora, e vejo emocionado, o calendário de senhoras da bela idade,
algumas de oitenta anos, posando semi-despidas para fotos sensuais de
um calendário que inova, resgatando nossa capacidade de “ver a beleza
que existe”. Que está aqui em frente, em nossa cara, em nossa casa, a
nosso lado, em todos os lugares. No campo, na cidade, nas fábricas,
nos escritórios, nas ruas, nos parques, nos pobres, nos ricos, nas
favelas e nos palácios. Basta que livremos do cativeiro nossa
liberdade e o direito de admirar o entorno com olhos desprovidos de
fórmulas “marqueteiras”, de moldes irresponsáveis, de engenhosos
maquinismos artificiais que têm nos enganado há tanto tempo. Admiremos
este calendário com os olhos autênticos que um dia tivemos. Examinemos
os contornos, a sinuosidade das linhas, os olhares, os sorrisos, os
movimentos, o corpo feminino, exalando beleza profunda.
É hora de nos revoltarmos contra o que nos impuseram e,
principalmente, às mulheres, seduzidas que foram por tais engodos.
Desesperadas, saíram à cata de receitas torturantes para se
transformarem, transformar seus corpos e mentes na tentativa de se
assemelharem, cada vez mais, aos tipos semi-robóticos criados por um
mercado despojado de alma.
Fez bem, muito bem, a meus olhos, admirar Marialva!
(01 de outubro/2005)
CooJornal no 444
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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