15/10/2005
Ano 9 - Número 446

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



O título de Izordina



 

Agachada.

Luvas de borracha amarela. Pequena pá vermelha. Izordina perde-se no jardim de flores prometidas para a primavera. Os óculos pendem suados. Os pés em galocha masculina, herdada.

Conversa.

As minhocas, sabiamente sempénemcabeça, ouvem reverentes, mas saracoteantes, um papo-cabeça com pés cravados na terra úmida, preta.

Conversa insólita. Queixa desconcertante, entrecortada por soluços espremidos, raivosamente contidos, insubmissamente liberados na revolta de mãe órfã.

Nos canteiros negros, as sementes descem pela terra macia, deixando na superfície a visão monocórdica de um inverno insistente, bruto, torpe.

Izordina, porém, sabe que flores nascerão. Que pétalas pintarão sua visão. Que fragrâncias tênues chegarão a sua janela. Que esmaecerá o preto funesto sobre seus dias até sumir no horizonte cinzento, gelado, cruel.

Não ergue seus olhos do chão pastoso. Recusa-se a ver o rastro de sangue das ruas, as grades de seu jardim do paradoxo, o escárnio dos governos criminosos, a injúria que se propaga descarada, o filho levado pela ganância de resgate, a doença e a morte provocada pela ambição animalesca do poder cínico, atrevido, insolente.

Recolhe-se, Izordina, no silêncio da terra preta. Não ouve a sirene, os tiros, os discursos, os fogos de artifício. Ouve apenas o silêncio tétrico. Não vê os desfiles das falcatruas e enganações que a mídia oferece pela antena da cobiça, travestidas de róseas promessas. Nem as fotos e filmes dos vilões arrogantes, sorridentes, flagrados em plena ação do crime. Nem os desmentidos de seus padrinhos desaforados, repetidos à exaustão, até o convencimento burro de um povo analfabeto.

Não. Izordina vê somente sua terra encharcada de lágrimas azedas. Vê a fotografia de seu filho torturado, arrancado de sua moldura promissora.

Não vê mais justiça para seus algozes. Justiça mergulhada egoisticamente em seus papéis supostamente valiosos, em seus despachos propositadamente obscuros, em sua preguiça criminosamente sem julgadores, em suas contas bancárias incólumes para bem de um suposto Estado.

Ela vê apenas o caos avançar para perto de sua cerca. Ouve a risada de seus algozes instalados nos palácios, sorrindo cínicos das amarguras que permeiam os mortais. Uma risada que afronta a gramática e a ética, a humanidade e os bichos, os valores e a competência, num eco espichado pelos ares, nas viagens de pasto farto e de ignorância crassa.

Izordina sabe que as sementes e as minhocas compreendem sua fala. E Izordina as elege e a elas confia suas certezas. Elas trabalharão desprendidas, silenciosas, felizes, neste inverno dos capetas e mostrarão sua competência na primavera, enchendo sua visão de flores, seu ar de odores, seu coração de alegrias.

A pequena pá cavoca um último buraco. Um buraco profundo. Tão profundo quanto alcança o braço cansado. Izordina tira a luva da mão direita. Procura no bolso o pequeno papel plastificado. Verde. Armas da República encimando seu nome. Ajeita-o descuidada. Deposita-o no fundo. Com violência, soca a terra até a exaustão e despede-se para sempre de seu título de eleitora.



(15
de outubro/2005)
CooJornal no 446


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br