22/10/2005
Ano 9 - Número 447

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



O PAÍS QUE EU QUERO!



 

Olho para meu país e não gosto do que vejo! Olho para o governo de meu país e sinto um aperto no peito! Ouço o Presidente de meu país e fico penalizado, sem saber se a pena é do presidente, ou do brasileiro.

Olho para Brasília. Fixo meus olhos no palácio, nos ministérios, no parlamento. Dirijo meus ouvidos para os discursos, para as entrevistas e náuseas advêm intempestivas, incontroláveis.

Existem valores que participam de minha vida, da vida de meus filhos e que desejo para meus netos, se vierem; desejo para os filhos e netos de meus leitores; desejo para todo brasileiro. São valores simples como a vida, a liberdade, a verdade, a justiça.

E o que acontece com a vida em meu país?

Ela é ceifada todos os dias, todas as horas, de forma corriqueira, impune. Oscar Perci Hoeflich era meu cunhado. Homem dedicado ao trabalho insano, desde criança. Amante de carros antigos. Restaurador respeitado. Perdeu seus pais muito cedo e construiu sua vida e sua empresa a custa de suor e lágrimas. Numa tarde chuvosa em Curitiba, rua movimentada, é parado por dois assaltantes que descarregam sobre ele três tiros para roubar o dinheiro do pagamento de seus três funcionários. Morre a caminho do hospital. Não é preciso dizer da imensidão do choque e do sofrimento da família.

Quero a vida como valor inestimável, mas vejo os governantes a desprezarem-na de forma criminosa. Estamos indefesos! Não temos ninguém que nos proteja. A rua lugar de perigo. É praça de guerra. Não quero ver amigos sendo mortos pela incompetência de governos corruptos a se sucederem, brincando com as esperanças e com a vida de um povo bom e enganado.

E o que acontece com a liberdade?

Ela vem sendo consumida por todas as bordas. A insegurança nos tirou seu símbolo maior. Está proibido sentar nas calçadas em frente a nossas casas num final de tarde, olhando as crianças, cumprimentando os vizinhos. Ao contrário, estamos atrás das grades construídas por nós mesmos. Estamos escondidos em casa. Temos medo de chegar e de partir.

Não há liberdade sem informação e conhecimento. E eles sabem disso! Os criminosos que assaltaram o poder impedem nosso povo de ter acesso puro e limpo à educação. Sem ela, não há como exercer a liberdade democrática, ou qualquer outra. Sem ela, não sabemos escolher e exigir. Subordinamo-nos aos espertalhões que lutam apenas pelo poder próprio.

Quero a liberdade de volta. Quero sentir a brisa entrando pela janela de minha casa e de meu carro, aberta, como aberto deve estar o conhecimento e a educação, de forma plena e irrestrita porque é esse valor que permite exercer a liberdade de escolha e de censura.

E o que acontece com a verdade?

Ela foi prostituída! Foi jogada na betoneira junto com a mentira. Formaram com ambas a massa profunda da promiscuidade e da vileza. Quero de volta a verdade como valor indispensável de convívio e pureza. Constrangido, me obrigo a explicar a meus filhos que a autoridade está dizendo mentiras. Forço-me a dizer o porquê destas mentiras. Estas explicações percorrem o leque do mal, da empulhação, do crime. E é a autoridade que faz uso da mentira!

Basta! Salvem este país da mentira. Ela está corroendo a alma cansada dos velhos e corrompendo a alma pura das crianças.

E o que acontece com a justiça?

É cega. Totalmente cega. Lenta. Irresponsavelmente lenta. Preguiçosa. Lamentavelmente preguiçosa. Assassina porque tarda e falha. Seus mentores não enxergam um palmo diante de seus narizes vermelhos, tanto que a simbolizaram com a estátua vendada, segurando uma balança que ela própria não vê.

Quero justiça, verdade, liberdade, vida! Quero ter orgulho de dizer a meus filhos, a meus netos: quieto! Preste atenção que agora nosso Presidente vai falar. Ouça e aprenda! - mas hoje não me atreveria a ser tão irresponsável.

Quero que num dia qualquer, às dez horas da noite eu atenda à campainha sem medo algum. Ao abrir a porta, verei um policial educado, feliz. Ele vai sorrir e dizer: senhor, desculpe o incômodo. Só quero avisar que acabamos de prender um intruso que estava tentando pular o muro de sua casa. Vamos conduzi-lo à delegacia e ao juiz de plantão para julgá-lo imediatamente. Devido ao flagrante, poderá ser encaminhado ao presídio amanhã pela manhã. Fiquem sossegados e tenham uma boa noite.

Ao voltar do trabalho, quero poder contar em casa o que me aconteceu. Quando parei no semáforo, um motociclista parou a meu lado. A mão pesada de um policial o agarrou inesperadamente e tirou-lhe a arma antes que a sacasse. O policial sorriu, meio sem graça, enquanto dava uma “gravata” no atrevido e dizia, já se afastando: desculpe, senhor, por ter demorado tanto a perceber a intenção deste marginal. Uma viatura parou ao lado, guinchando pneus. O assaltante foi levado ao camburão.
O sinal abriu. Continuei tranqüilo meu trajeto para casa. Janela aberta que o calor era imenso e a brisa confortável.



(
22 de outubro/2005)
CooJornal no 447


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br