29/10/2005
Ano 9 - Número 448

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Pensamentos caóticos!



 

Ele se apresentou subitâneo, quando eu trafegava sozinho numa noite leve, pelo bosque do Jardim Botânico em minha doce Curitiba.

Caminhava para me entregar à diversidade de sombras e ruídos que emolduram as noites por aquelas bandas, meditando sobre amenidades, na busca de um relaxamento renovador.

Esfreguei a vista cansada, na tentativa evidente de vê-lo se misturar com a penumbra. Só podia ser uma alucinação passageira. Tinha certeza de que tudo ia se normalizar no próximo instante. Abri os olhos ardidos, mas ele continuava ali. Braços cruzados, encarava-me em vermelho. O vermelho não era do globo ocular que é branco e, vez por outra, fica avermelhado de raiva, de sono, de estafa ou outras coisas mais. O vermelho era da íris! Aquilo que para uns é castanho, preto e para outros é verde, azul ou cinza, para aquela criatura, que teimava em não desaparecer de minha frente, era vermelho. Não um vermelho comum, mas brilhante, iluminado, horrível, apontando para mim como dois faróis, dois spots, dois chafarizes de sangue.

Virei o rosto para trás, para os lados, na busca de uma brecha para uma fuga de emergência. Ele deu um passo à frente. Não! Não foi um passo. Ele se aproximou como se deslizasse sobre patins. Pareceu advertir-me: “Não fuja!”. Lia meus pensamentos, o desgraçado.

Esta é uma hora em que tudo no parque reduz a velocidade. As pessoas vão embora, os funcionários fecham portões, a escuridão encrespa a vontade de assumir os espaços. Arrisquei um “Quem é você?”. Sem resposta, apenas intensificou o jato vermelho. Tentei, então, relaxar e imaginar como sair daquele embaraço que, para meus instintos de sobrevivência, indicava perigo.

O que poderia fazer ali, a poucos metros da trilha principal, para me safar? O que pretendia aquela criatura? Engolir-me? Arrancar minha alma pela boca, levá-la ao inferno? O que farei sem alma, depois disso? Como ficarei, se sou o que é a alma? Não! Não sou nada disso! Estou divagando como um desvairado.

Um grito! Sim! Vou gritar tão alto quanto jamais gritei. Gritar como um histérico a palavra clássica: socorro! Ele sorriu e botou o dedo indicador sobre os lábios. Os lábios daquela coisa eram verdes. Verde musgo. O que ele faria se eu o desobedecesse? Deu mais um daqueles passos lisos para frente, ameaçador, adivinhando minhas intenções. Estava me sentindo seqüestrado: sem cordas, algemas ou cubículo, mas refém.

Fiz uma revista mental em meus bolsos. Chequei os objetos que tinha. Algum deles poderia servir de defesa ou assustá-lo. Botá-lo para correr. Um lenço um tanto usado que, certamente, não se desfraldaria para se transformar numa bandeira de paz. Uma carteira cheia de documentos e contas a pagar, uma ameaça apenas contra mim mesmo. Um celular. Opa! Um celular! Como não lembrei disso antes? Não preciso gritar. É só pôr a mão no bolso e teclar um número de emergência qualquer. Resultado: mais um passo intimidador em minha direção. A cada pensamento de fuga ou socorro, ele se antecipava e me bloqueava. Sem dúvidas, meu futuro algoz lia pensamentos.

Mas, espere um pouco! Esta é a chave de minha salvação: o pensamento! Invadi minha cabeça com uma saraivada de pensamentos confusos, caóticos, loucos sobre ele. Xinguei-o, xinguei o mundo, xinguei o Jardim Botânico e Curitiba inteira que me abandonava daquela maneira. Meu único esforço era para não parar. Pensei em minha última partida de xadrez, pensei na fórmula de Baskara, nas equações e inequações de segundo grau, nos limites e derivadas, no teorema de Dandelin. Comecei a desfilar os algoritmos que lembrava de meus tempos de programador. Misturei tudo com personagens que já criei e outros ainda em exuberante formação. Imaginei histórias travessas, embaralhei tudo num vai-e-vem alucinante.

Ele balançou o corpo. Colocou as duas mãos sobre a cabeça. Mãos gigantescas, de um azul opaco. Pela primeira vez não se atreveu a dar mais um passo. Eu sim, me atrevi... e para trás, sem interromper a avalanche de pensamentos desordenados. Ele se abaixou, inclinando o rosto. Os fachos vermelhos se tornaram magenta, depois cor-de-rosa, frouxos, pálidos, até se apagarem, melancólicos. Os lábios perderam o verde musgo, sobrando um marrom escuro, barrento. Aos poucos, foi se encolhendo e se apequenando, até que desapareceu como formiga nos desvãos do solo úmido.

Suspirei aliviado e voltei para casa, com meus fulminantes pensamentos caóticos.



(
29 de outubro/2005)
CooJornal no 448


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br