
05/11/2005
Ano 9 - Número 449
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Flor sem futuro!
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Três horas da tarde. Quinta-feira, vinte e dois graus. Não me peçam
para informar o mês, ou a estação, ou em que ano estamos. São dados
irrelevantes agora. Nada urgentes.
Nesse exato momento, eles estão aqui, em minha frente, a poucos metros
e não posso perder detalhe algum. Não me vêem e talvez nunca virão
sentar-se a meu lado. Eles não têm tempo para aquietar o espírito num
banco de praça. Estão alvoroçados em seus quinze a vinte e tantos
anos. Olhando um para o outro, maravilhados com a visão, nada mais
percebem.
Sintam o fascínio que explode neles, pelos excitantes mistérios que
precisam desvendar. É isso que produz as expressões maravilhosas nos
olhos, na pele, nos sorrisos, nos gestos...
Não posso ver algumas coisas, mas posso deduzi-las. Posso entender,
mas não devo aconselhar. Não devemos, jamais, quebrar, indelicados, a
solidão de seus quartos. Antes de virem para a rua trocar mistérios,
eles precisam ficar a sós. A música estonteante vai ferir os ouvidos
de todos, mas eles precisam dela, exatamente assim, no volume máximo.
Não tente explicar esse paradoxo. O que posso dizer é que esse é o
recurso indispensável para ouvirem o que está dentro deles, fervendo,
mas sussurrando. Para ouvir lá dentro, precisam apagar um pouco o
barulho cá de fora. O barulho do mundo impede que ouçam os sinos
internos. Daí, a necessidade de se ajustar o som o mais alto possível.
É com ele que o exterior entra em colapso e silencia. Silenciando,
eles podem curtir os murmúrios que vêm de dentro. Não quebrem esses
momentos. Agüentem. Compreendam.
Se o estrondo de sua música for impedido, apelarão para outros
caminhos até mais violentos. O jovem precisa ouvir o seu interior. Se
não pararmos de tagarelar, eles vão nos silenciar de qualquer modo. As
drogas são ótimas para isso!
Aprenda a ler esses cristais sem quebrá-los. Não interfira!
Compreenda! Para compreender, basta ter a capacidade de retroceder no
tempo, sondar a alma em busca das respostas que impediram que
tivéssemos no tempo certo. E não tivemos porque nos interromperam. E
interrompendo nos deixaram jovens incompletos, adultos frustrados,
velhos inconformados. Não interrompamos os jovens com essas teorias
pedagógicas e psicológicas feitas por adultos frustrados. Não fomos e
não somos capazes de fazer a leitura correta do que se passa nas
alamedas inexploradas da alma jovem. Assim mesmo, queremos teorizar em
cima de nossas frustrações e impor a eles nossas magias, urdidas na
calada de nossos laboratórios envelhecidos.
Agora, eles estão aqui em frente, reunidos num alarido
incompreensível. Se você chegar lá perto, tudo se interrompe. Tudo se
trinca!
Não se zangue ao ouvir um cochicho:
– O que esse babaca tá fazendo aqui?
Bem feito para você. Perca essa mania de que só você pode ajudar os
jovens. É você que acha que eles precisam ser conduzidos, educados...
Não é nada disso! Nós somos grosseiros, não sabemos nunca a hora e o
modo de nos aproximar. Impomos o momento e quebramos o encanto. Ao
quebrarmos o encanto, tudo se perde. Fazemos isso com uma insensatez
despudorada, sem perceber a delicadeza da alma jovem. Precisamos ficar
de longe, como estou agora, observando. Haverá o momento certo de se
aproximar, de compreender. Para isto, é preciso sensibilidade fina,
mansa, inteligente. Entretanto, não fazemos nada disso. Agimos, usando
um trator enorme e bruto, para plantar uma flor. Matamos a flor e
depois a culpamos por isso. Lá de cima de nosso trator pedagógico,
cheios de cursos, de doutorados e quetais, cheios de compêndios e
manuais, ainda temos a desfaçatez de dizer:
– É! Essa flor não tinha futuro, mesmo!
(05 de novembro/2005)
CooJornal no 449
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba”
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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