
12/11/2005
Ano 9 - Número 450
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Aurélio, Euclides e o
Presidente
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Você, presidente, precisa ficar mais esperto. Estão passando dados
errados pra você, só para “tirar sarro” de sua cara. Cuide-se!
Veja só, presidente, a falta que faz um mínimo de estudos. É ela, a
falta, que tem este efeito colateral perverso: deixa o dono da
ignorância um tanto tonto, um tonto tanto, tanto faz, que ele, o
tonto, fica acreditando em tudo. É a maldita falta do ferramental
intelectual que permitiria triar e não trair e ficar traído sem saber.
E quando falo ferramental, não estou falando de torno que é perigoso,
pode decepar muita coisa, coisa sem retorno... Digo isso, presidente,
porque vossa excelência – sim, vossa, nossa não pode ser, porque o
selo de “excelente” não cola no colarinho branco tipo alta-alvura que
passou a habitar seu curto pescoço – tem repetido números que alguém
aí de seu lado coloca em sua boca e nós aqui do cerrado e da serra, da
barra e do barro, do campo e campus, sabemos de tudo. Sabemos que
eles, os números, são engraçados, mas são rasteiras que passam em
você, presidente. Fique mais esperto!
Conosco é diferente porque lemos, presidente. Lemos jornais, revistas
e livros. Livros em abundância. Livros grossos e finos, profundos e
fundos. E lemos sem preguiça. Livros longos, artigos grandes, textos,
relatórios, planos, programas, projetos e novamente livros. Acho que
você não conheceu o Alves. Aquele das Espumas Flutuantes. Ele falava
de livros, livros a mãos cheias porque livros fazem o povo pensar.
Lemos as fontes. Lemos as profundezas dos números e do alfabeto
completo. E o fazemos por razões que sua razão desconhece, por óbvio
de preguiça e descaso. É assim que aprendemos a deduzir e triar sem
trair, separando a jóia do tiro. Deduzir e triar, a bobagem da
sacanagem, repito, usando a lógica euclidiana que vossa futura
ex-excelência jamais há de conhecer, nem ao respectivo seu criador.
Cuide-se, presidente. Você está acreditando tanto numa, quanto noutra,
e é por causa disto que distribui as sacanagens e as bobagens,
aproveitando-se da galera que rema e que remando precisa acreditar em
alguém. E aí vem, logo quem? Você, ora essa! Você que não conseguiu
passar do “ABC”, literalmente. A você, que tem a falta da imensidão de
tantas letras que se seguem a esse bem maldito, ou mal bendito, “ABC”
e passa a falar tolices impensadas, babaquices, bobagens, bobeiras,
besteiras, bestices, bestidades, bobices, dislates, disparates,
parvoíces, burrices, burradas, burragens, burricadas, burriquices,
jericadas, asnadas, asnarias, asneiradas, asnices, asnidades e tantas
outras dicas interessantes que o Aurélio, meu amigo, talvez seu
inimigo, enfileira e alfineta por este mundo afora.
Pois é, presidente. Tento auxiliá-lo com este alerta porque estou
envergonhado da vergonha que desavergonhadamente se espraia pela
planície que já anda a ver gônadas cheias. Pra falar a verdade, todos
nós aqui estamos com as gônadas cheias. Sei que você não sabe o que
são gônadas, mas alguém aí perto vai explicar e fazer você acreditar
que gônadas são um atributo da inteligência. Só pra você se precaver,
não é isso, não, viu?
Você, presidente, anda cercado de gente mais instruída, mais ladina,
mais esperta. E esta turma está se divertindo com as patuscadas em que
você se mete.
O pior, presidente, é que você fala em público, no rádio, no caixote,
nos discursos - menos nas entrevistas que você não dá e se dá, se dá
mal. E por se dar mal, dá só as pré-fabricadas, não é mesmo? E fala
convicto, estranhamente convicto nunca contrito nem constrito menos
ainda convindo, as bobagens que são semeadas em sua cabeça cheia de
algumas coisas e vazia de outras. Fica engraçado, mas é tão trágico,
tão deplorável, que me sinto na obrigação de avisá-lo, pois estou
cansado de passar vergonha.
Dê um jeitinho, presidente. E de jeitinho você entende pra burro, que
eu sei. Ache uma boa professora, ou professora boa como sei que você
prefere e dedique algumas horas por semana pra entender como é “ver” o
mundo de verdade. Não com os olhos do “ABC” somente, nem com os olhos
que estão aí enterrados na cara, mas com os olhos do “...DEFG... ...XYZ”.
Preste atenção nestes três pontinhos. Eles têm um significado
importante. Mas isto você terá que olhar com os olhos do intelecto.
Aqueles são olhos que temos dentro da cabeça. São estes olhos que nos
permitem ver coisas que os que não os descobriram jamais verão. E é
isto que faz falta pra você: estudar e estudar muito para descobrir
esses olhos...
Pra encerrar, presidente, deixo aqui o alerta veemente. Eu disse:
veemente. Você sabe o que é? Não é ver mente, nem vê se mente, nem
vertente, ou ver, tente, mas é veemente mesmo. Se não conseguir saber
o que é, fale com o Aurélio que deve estar se escondendo em alguma das
bibliotecas aí do palhaço. Perdão, do palácio.
Até mais! Mande recomendações ao Aurélio... Ah, ia me esquecendo, ao
Euclides também!
E vê se arruma essa bagunça!
(12 de novembro/2005)
CooJornal no 450
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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