
10/12/2005
Ano 9 - Número 454
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
A
Revolta das Bengalas
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Era uma vez uma bengala que tinha um dono e incontáveis outras irmãs
que também tinham seus donos. Apesar de irmãs, apresentavam muitas
diferenças entre si. Diferenças somente nas aparências. De
personalidades solícitas, cordatas, submissas, prestativas, dóceis,
humildes, respeitosas, resignadas, conformadas, subservientes,
escravas, obedeciam cegamente seus donos, na acepção mais dura do
termo.
Bengala, como todas suas milhões de irmãs, só conhecia o bem, mesmo
porque, o bem fazia parte integrante até de seu nome. Ninguém jamais
imaginaria uma bengala se chamar maugala. Além de pouco sonora, a
palavra seria injusta.
Claro que todas sabiam da existência de algumas primas distantes que
tinham em sua alma armas letais como espadas, estoques e mesmo armas
de fogo. Estas parentes espúrias tinham donos também dissimulados que,
a rigor, não precisavam delas. Para estas, sim, justificar-se-ia o
nome maugala, embora de gala só a aparência...
Entretanto, teve um dia – bendito dia aquele – em que Bengala, cansada
de ver triunfar o mal, rebelou-se.
Tudo começou muito devagar, de forma surpreendentemente sutil. Yves,
seu dono, percebera nela alguns tremeliques quando lia jornais, ouvia
rádio ou se refestelava à noite em sua poltrona predileta, para
assistir aos vibrantes noticiários. Bengala repousava ao lado, quieta,
como é próprio de qualquer bengala que preze o nome. Repentinamente,
começou a rolar para longe, trepidando um trepidar irritado, quase
raivoso. Yves levantou-se devidamente assustado, indevidamente
desapoiado e a trouxe de volta.
Atônito num primeiro momento, deixou chegar o segundo momento e
atribuiu o fato a fenômeno perfeitamente lógico, como uma réstia de
vento, já que o Sol se escondera na borda do mundo há bastante tempo e
não poderia, por evidente, ser uma réstia dele. Mais provável ela
estar mal estacionada em algum móvel. Afinal, Bengala não tinha
bengala para melhor apoiar-se. Daí, poderia ter acontecido uma
escorregadela e pronto. Bengala rolara para longe dele.
Evidentemente, lembrou-se dos tremeliques esquisitos que ela sofrera
dias atrás. Começou a desconfiar de si mesmo, já que estes fatos
passaram a se repetir com muita freqüência.
Aos poucos, Bengala escancarou sua revolução. E no dia fatídico, ao
invés do Yves dirigir os destinos de sua bengala, Bengala começou a
dirigir sua mão. Milhões de irmãs assistiram a tudo pela televisão e
começou no Brasil a revolta das Bengalas. Os poderosos, agora às
voltas com o que chamam de “problema” – embora esteja parecendo uma
solução – estão agitados. Querem votar novas leis para regulamentar as
bengalas. Mas já não conseguem pensar direito, pois, antes que todos
passassem a usar capacetes, suas cabeças ficaram muito inchadas e
desativadas. É comum ver no parlamento, no palácio e nos ministérios,
capacetes voarem intempestivamente e novos galos surgirem, a ponto das
fábricas de capacetes estarem aumentando os tamanhos e as bengalas
estarem pensando em mudar seus nomes para bengalos, ou seja, galos que
fazem bem. Nunca se vendeu tanto capacete.
Hoje, as bengalas dominam tudo. A limpa está sendo rápida, nada
gradual e muito restrita, tomando conta de todos os nichos.
A propósito, quem está escrevendo este texto, não sou eu, é uma
bengala.
(10 de dezembro/2005)
CooJornal no 454
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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