
28/01/2006
Ano 9 - Número 461
ARQUIVO AIRO ZAMONER
|
Airo Zamoner
A Igualdade Final!
|
 |
Encoberto pela couraça dos setenta e tantos anos, professor Antonio
passeia pelo bairro, orgulhoso de suas idéias. É um idoso jovem
sonhador. Não se desvencilhou da ingenuidade santa de áureos tempos.
Ávido por ajudar, mantém a cabeça erguida, vencendo o peso dos anos a
empurrá-la para baixo. Em sua pasta carcomida, desgastada, idéias e
mais idéias saltitam em forma de papéis desordenados, amassados,
rabiscados. Está disposto a salvar o mundo, não importando a utopia do
projeto. Atento aos solavancos da marcha inexorável do planeta, vai
alinhavando soluções mágicas, recheadas de diretrizes para uma
sociedade feita de homens divinos, enquanto explana uma a uma aos
demônios que o cercam.
Suas soluções são muitas vezes infantis, eivadas de uma crença
inabalável na bondade humana, em virtudes de uma sociedade ética.
Ética que ele imagina existir aos borbotões em todas as esquinas.
Encontrei-o algumas vezes. Trocamos poucas palavras. Seu otimismo
impúbere é arrasador. Suas virtudes, seus valores nobres se derramam
pelos olhos. Profundamente ético tem a verdade acima de tudo; a crença
imortal na honra dos homens. Pensa que as mazelas do país se devem à
falta de soluções criativas ou a uma ignorância que ele pode iluminar
com suas notas e livros. Nunca vê a malandragem embutida nas palavras
doces de pretensos salvadores da pátria. Jamais percebe a malícia
luciferina nos discursos empolados dos gatunos mascarados. Não vê o
crime sinistro dos esbulhadores oficiais, mutilando a carne, a alma do
povo atônito.
O que me choca profundamente nesta figura é o contraste com o perfil
dos jovens de nosso tempo. Crescem na gatunice lucrativa desde os
bancos escolares. Escolhem suas malditas profissões pelas
possibilidades de lucro fácil e nunca pela santa e aposentada
realização vocacional. A ordem é vencer economicamente,
financeiramente, patrimonialmente, não importando quem morrerá pelo
caminho esmagado pela ganância estimulada. Às favas com os valores
nobres. Formar-se nas falcatruas de todas as cores é fundamental.
A esperteza das negociatas é o diferencial do herói de hoje. Entrar na
política é entrar num mundo de vantagens pessoais. Assumir um cargo
público qualquer é abrir um horizonte de ganho fácil. É poder colocar
a mão nas grandes fortunas da arrecadação compulsória. Com uma justiça
cada vez mais cega, burra, capenga, molenga, inepta, incompetente,
conformada e até corrupta, é fácil safar-se de tudo. O que podemos
pensar da justiça, se ela espia marota por baixo da venda, segurando
uma balança que mais lembra uma rede a evocar preguiçosos verões?
Professor Antônio. Figura em franca extinção. Olhando-o, obrigo-me a
imaginar como serão os velhos de amanhã. Não haverá mais um único
sonhador. Pelas calçadas da vida, somente velhinhos malandros.
Enquanto um rouba do outro no joguinho de dama para não perder a
forma, as conversas estarão girando em torno de quem fez mais fácil a
tarefa de pôr a mão no dinheiro alheio, trabalhando menos e se safando
mais.
Assalta-me a tristeza sobre o futuro. Um futuro só de espertalhões a
se lograrem mutuamente. Sociedade miserável esta, se um dia estiver
formada apenas por desonestos, mentirosos, egoístas, ladrões, pulhas e
patifes de todos os matizes! Nesse futuro aglomerado social, seremos
todos ladrões bem formados e estaremos coletiva e divinamente
perdoados para a eternidade, ou nos eliminaremos mutuamente para
comemoração do universo.
(28 de janeiro/2006)
CooJornal no 461
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
|
|