18/03/2006
Ano 9 - Número 468

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



DUAS COISAS!


 

Há momentos na vida em que somos projetados intempestivamente para dentro de túneis escuros numa velocidade absurda, esperando impactos definitivos.

Sabemos que duas coisas poderão acontecer e somente duas: sair do outro lado ou nos despedaçarmos pelo caminho. Lá dentro, na escuridão de uma solidão de amarguras e aflições, os acontecimentos poderão nos fortalecer ou nos destruir. Definitivamente, porém, jamais seremos os mesmos.

As doenças nos velhos de nossas íntimas relações são dolorosas, conformadamente dolorosas. Nos moços, nos filhos, são devastadoramente amargas e nos envolvem o corpo e a alma com tristezas impensáveis.

E o que fazer ao longo desta desabalada corrida? Descobrir que nunca estamos realmente sós. Olhar em volta, esquecendo os perigos de nos destroçarmos e procurar outras mãos. Sim! Há muitas mãos que também se afligem, ávidas de um aperto vigoroso.

Forma-se, assim, um bloco de almas que sofrem o mesmo sofrimento. Um bloco que se agiganta e reduz a velocidade. Um bloco, ganhando luz própria, tênue nos primeiros momentos, mas que já permite ver relances nas paredes riscadas do túnel e sentir que a velocidade se reduz.

Aos poucos, encontramos o chão e os pés se arrastam, mas logo se apóiam e todos ainda correm na busca de enfrentar a inércia maldosa, reduzir impactos.

O grupo se amplia, as lágrimas se misturam num amálgama salgado e nos banha a pele rústica, encrespada pelo atrito sangrento. Aos poucos, ele se adoça e nos acaricia, escoando padecimentos. O bloco se aquieta. Com os pés no chão, não mais é arrastado, não mais corre em desabalada loucura, mas caminha. Caminha serenamente.

E todos já podem se olhar nos olhos, trocar amarguras em silêncio, admirar e jamais enxugar as lágrimas múltiplas que já se espalham numa sofreguidão de cores. Então chega o abraço que acalma, silencia e recupera o domínio para enfrentar a travessia.

Ao bloco físico, juntam-se tantos outros que, distantes, longe do túnel incerto do sofrimento, num sofrimento certo, aglutinam-se invisíveis, enviando sinais etéreos de que estão juntos. Estamos juntos.

Nossos olhares já podem se voltar calmos para frente e já podemos esboçar a sutileza de um sorriso porque todos conduzem cada um, cada um conduz a todos para as luzes que nos aguardam na saída que se avizinha.



(18
de março/2006)
CooJornal no 468


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br