
29/04/2006
Ano 9 - Número 474
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
Roaldo, o avô
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Roaldo Neto foi surpreendido pelo filho pequeno enquanto passeava pelo
setor histórico da cidade. O menino gaguejou sílaba por sílaba
enquanto lia as placas azuis de cada esquina. Descobriu que a rua em
que estavam se chamava Avenida Jaime Reis. Puxou a manga do pai
distraído que custou a atendê-lo. Queria saber quem era o tal de Jaime
e porque tinha uma rua com seu nome. Foi logo emendando:
– Pai! Qual rua tem o nome do vô Roaldo?
Roaldo, o avô, estava perplexo. Tinha certeza que estava na Avenida
Cruzeiro, na região histórica da cidade, mas havia algum tipo de briga
com sua memória. Região histórica? As placas indicavam Avenida Jaime
Reis. Onde foi parar a Avenida Cruzeiro? A pergunta martelava sua
memória cansada. Mas a imagem do corpo sendo carregado pelos policiais
insistia em tomar o primeiro plano. Quem teria morrido daquela maneira
tão trágica?
– Não, meu filho! Não tem rua alguma com o nome do vô Roaldo.
Roaldo Neto queria saber por quê. O pai explicou. Nome de rua era uma
homenagem a ilustres cidadãos que fizeram alguma coisa importante para
a cidade, ou para o país. E tentou se esquivar, dizendo que iria
entender melhor estas coisas quando crescesse e se tornasse um
estudante como aqueles que estavam de uniforme, descendo a Jaime Reis.
Roaldo, o avô, foi envolvido pelo intenso e súbito corre-corre. A
aglomeração de pessoas aumentava minuto a minuto. As luzes alucinantes
das viaturas assustavam mulheres e aguçavam a curiosidade dos homens.
A insistente sirene antiga derretia-se pelos ouvidos atentos. Uma
pergunta surgia de todas as bocas. O que estaria acontecendo?
Abrindo caminho na multidão, um grupo de policiais silenciosos
carregava às pressas para dentro da ambulância um corpo inerte. A
notícia não demorou a se espalhar. Pessoa importante acabava de ser
assassinada na saída de um dos mais famosos cinemas de Curitiba. Nunca
se dera bem com aglomerações. Assim que foi empurrado no primeiro
encontrão, subiu correndo para a praça Tiradentes, atravessou-a num
pulo indo em direção ao bairro do Juvevê.
– E o Jaime, pai? Quem foi ele?
Roaldo lembrava de antigas conversas com o pai sobre um assassinato
ocorrido em 1912 e que ele presenciara na saída de um cinema. Algo lhe
dizia que esta história tinha a ver com o nome daquela rua.
Desolado, Roaldo, o avô, sentia um certo desconforto por ter fugido
tão prematuramente da confusão. Resolveu voltar. Afinal, precisava
saber quem havia sido morto daquela maneira. E aonde, diabos, foi
parar a Avenida Cruzeiro?
– Pai! Você não vai me responder? – insistiu o filho.
Roaldo se limitou a dizer que estava pensando, que logo iria lembrar
quando o velho encarquilhado, costas excessivamente curvadas, bengala
de ponta desfiada, óculos pequenos e certa angústia no olhar
perguntou:
– Meu rapaz, poderia me dar uma informação?
Roaldo se colocou à disposição. O velho o fitou demoradamente e
algumas lágrimas deslizaram por entre as fundas rugas. Colocou as mãos
no peito, depois olhou para o Roaldo Neto. Estendeu a mão para
afagar-lhe a cabeça, mas recuou. Roaldo insistiu sobre a informação
que ele precisava e se estava se sentindo bem. O velho apenas fez um
gesto com a mão. Não precisava mais. Agora já lembrara o que havia
acontecido com a Avenida Cruzeiro.
– Pai! Este velho é parecido com o vô Roaldo das fotografias, não é?
Roaldo ficou olhando o velho se afastar, descendo em direção ao
centro.
– Você faz muitas perguntas, filho!
– Mas você não responde nenhuma...
– Qual foi a pergunta que eu não respondi?
– A do Jaime...
– Ah, sim! O Jaime, da Avenida Jaime Reis, não é? Jaime Drumond dos
Reis foi escritor, jornalista e também político aqui de Curitiba.
Morreu assassinado na saída de um cinema há muitos anos. Para
homenageá-lo, trocaram o nome da Avenida Cruzeiro para o dele.
– Como foi que você lembrou tudinho agora?
– Foi aquele velho que pediu informação. Lembra que ele falou da
Avenida Cruzeiro?
– Que velho, pai? Você só mostrou os estudantes. Não encontramos
nenhum velho aqui hoje!
(29 de abril/2006)
CooJornal no 474
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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