
06/05/2006
Ano 9 - Número 475
ARQUIVO AIRO ZAMONER
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Airo Zamoner
O Balandrau
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Passos lentos. Pés arrastando sandálias gastas pelo chão de pedra
antiga na velha Praça Garibaldi de minha Curitiba inesquecível. Gestos
lentos, como todo corpo velho. Um balandrau, exalando bafio de armário
abandonado pela mulher amada, cobria o corpo delgado, mas arguto, de
Tarcísio. Como arguto era o olhar a contraditar gritantes evidências
de cansaço. O cansaço dos guerreiros, como foi o Giuseppe que a praça
homenageia. Guerreiro que foi capaz de convocar para uma luta inglória
os voluntários que se rebelavam contra as tiranias, os impérios, as
ditaduras que se repetem num carrossel de todas as cores e disfarces.
Não prometeu paraísos. Prometeu fome, sede, marchas forçadas, batalhas
e morte. Advertiu que o sacrifício de suas vidas era apenas para
aqueles que amam este país com o coração e não apenas com os lábios.
O velho parou diante da placa que nomeia a praça. Imaginou a que país
Garibaldi se referia. Perguntava-se: como podemos ser tão hipócritas,
reverenciando quem lutou a luta da liberdade que hoje se camufla nos
circunlóquios do discurso sem-vergonha, ecoando numa nação
miseravelmente traída, injustamente desonrada?
Parou diante da “Cabeça de Cavalo”. Admirou a escultura em seus
detalhes ínfimos no bronze escurecido do escultor Ricardo Tod. “O
tempo não existe quando a memória do homem permanece”. Olhou em torno.
Viu um povo que caminhava no caos da rosa-dos-ventos. Eles vão e vêm.
Vêm e vão. Que lugares os aguardam? Que saudades deixaram? Que
pensamentos se aglomeram em tantas cabeças? Que memória permanece,
vinda dos pais, dos avós, dos bisavós esquecidos, antepassados que
suaram o sangue de suas vidas para construir este país e imaginar que
seus netos, seus bisnetos viveriam num mundo melhor? Talvez nenhuma,
imaginou Tarcísio desolado.
Ainda diante da arte exposta sem avareza, sem mesquinhez, ficou a
imaginar como lutar contra os inimigos das liberdades dentro dos
“hojes” que se sucedem. O inimigo não se mostra. Ele se esgueira pelos
ares, vestido de ouro e lantejoulas, seduzindo docemente, enganando
com sorrisos e promessas tentadoras. Os homens públicos não são mais
os idealistas despojados de ambições. São, isto sim, um sórdido
produto do “marquetim” intrinsecamente enganador. São fabricados com
rigor científico, onde tudo é mensurado, ensaiado nas provetas de
alquimistas dos demônios. Depois, numa embalagem irresistivelmente
atraente, são oferecidos a um povo ingênuo, abandonado pela cultura,
distante da informação, criminosamente sonegado da educação verdadeira
que critica, contesta, transforma, faz pensar e conspirar! Um povo
comprado facilmente pela pequenez de seus sonhos, livres do sonho
maior de uma nação feliz.
E os pensamentos se agitavam dentro de Tarcísio. Os inimigos da
democracia, da liberdade, da felicidade do povo...
Tarcísio é sacudido pela mão firme do esbelto membro da Guarda
Municipal curitibana, todo de azul marinho, educado, bem treinado,
quase londrino. Queria saber se o velho estava se sentindo bem.
Parecia sonolento, com aquele olhar fixo no bronze puro. O corpo
balançava perigosamente.
Tarcísio não respondeu. Flutuou acima da placa “Praça Garibaldi”. Onde
estará Giuseppe Garibaldi? Outro guarda se aproximou. Deitaram-no na
calçada limpa, esperando ser recolhido rapidamente. Afinal, esta é uma
praça turística.
Enquanto isso, o balandrau servia-lhe de mortalha.
(06 de maio/2006)
CooJornal no 475
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br
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