13/05/2006
Ano 9 - Número 476

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



A Raiva de Ermerenciano

 

Com as bochechas embexigadas, lábios afinados e excessivamente apertados, suportando pressão involuntária, Ermerenciano se esforçava ao extremo para evitar a eclosão iminente.

Os olhos aumentavam de tamanho, arregalando-se assustadoramente. Ali, também, a pressão se exercia. Algo explosivo estava por acontecer. Os cabelos começaram a balançar e se desalinharam inexplicavelmente. O rosto começou a se avermelhar, esboçando arroxeamento perigoso. As têmporas mostravam, cada vez mais intensamente, veias pulsantes que se apresentavam num limiar entre o verde e o azulado. A coação interna, era evidente, se tornava emergencial.

Se por perto estivesse alguém que o conhecesse superficialmente, diria que ele estava prestes a desabafar sua raiva. E só poderia ser muita raiva acumulada. Raiva, ele sempre tivera de bandidos, ladrões, trapaceiros de todas as cores e tamanhos. E agora, vendo a desfaçatez com que os trambiqueiros assaltavam o país, Ermerenciano estava a ponto de provocar a maior catástrofe da história da Rua das Flores. Se este era o motivo, nem Deus saberia predizer o que desabrocharia daquela boca em alta compressão.

A figura de Ermerenciano não poderia deixar de chamar a atenção generalizada nem por mais um minuto. Foi assim que, de um pequeno grupo inicial e atônito a sua volta, logo se formou pequena multidão. Depois, grande multidão.

As tentativas de se comunicar com ele foram em vão. Não falava, mas aumentava de tamanho, inchando perigosamente. Seus lábios se recusavam a liberar o que se acumulava além dos limites plausíveis, fosse aquilo o que fosse. E o que era aquilo?

O trânsito já se complicava na região central de Curitiba. Não demorou para correr o boato de que uma bomba estava por explodir. Boato levado a sério por alguns poucos, mas que a maioria incrédula queria primeiro ver.

A polícia foi acionada. Batalhões de controle de distúrbios, ambulâncias, guardas, esquadrões especializados e mais o diabo se misturaram à multidão.

Buscou-se, principalmente, o olho do furacão. E o olho do furacão era Ermerenciano. Mas, onde estava Ermerenciano?

Nariz escorrendo, olhos injetados de sangue, voz rouca, pensou em fugir da confusão. Correu o quanto pôde, abrindo caminho como um bruto. Antes de chegar em casa, conseguiu, finalmente, abrir os lábios e liberar o maior espirro de sua vida.



(
13 de maio/2006)
CooJornal no 476


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br