20/05/2006
Ano 9 - Número 477

ARQUIVO
AIRO ZAMONER

 


Airo Zamoner
  



Salve-se quem puder!
 

Houve um tempo em que, ainda menino, olhava o horizonte e me perguntava: até aonde vai meu país? Onde é o Norte? O Sul? Onde começa e termina o Brasil? Para mim, os limites estavam ao alcance de meus passos, isto é, lá nos rincões do norte do Paraná que começava a existir, até São Paulo que já explodia em prédios, aonde passávamos algumas férias nos passeios anuais.

Minha tenra infância deslizava suave durante a segunda Grande Guerra. Soube dela porque faltava açúcar, farinha, faltavam brinquedos. A desculpa, sempre a mesma: é a guerra! E onde estava a guerra? Paciente, meu pai mostrava os mapas e explicava.

O aparelho de rádio americano ocupava um lugar nobre em nossa casa. Era dele que vinha a excitação, tomando conta do espaço, quando entrava no ar o Repórter Esso. A narração agitada denunciava que alguma coisa importante, até trágica acontecia com o país, com a guerra. Ou seria com a nação?

Depois, muito depois, o país foi crescendo em minha cabeça. E outra palavra tomou posse dos pensamentos. Nação! Passei a gostar da palavra nação muito mais que da palavra país.

Em minha pré-adolescência, já vivendo as agruras do saudoso Internato Paranaense, lá no bairro do Seminário em Curitiba, agigantou-se outra palavra no rol de minhas preocupações: pátria. E com ela: patriotismo. Em patriotismo, havia algo de sentimento, de alma, de orgulho. Aquele orgulho que fazia tremer o corpo ao rufar de tambores poderosos nos desfiles militares da época. Aprendi que a pátria é nossa! Ela é grande e generosa e por ela devo ter respeito e me sentir altivo. E então, cantava os hinos com o corpo ereto, empertigado, olhando para um horizonte imaginário, ufanoso de ter minha pátria, o Brasil, como um país diferente, único!

Mergulhado em livros, histórias, poetas, escritores, no silêncio da vetusta biblioteca do Internato, das letras frias dos livros emergiam discursos inflamados, louvando a pátria. E pátria passou a ser algo sagrado dentro de meu coração adolescente. Entretanto, novos e preocupantes termos foram aparecendo: miséria, injustiça social, governos, políticos, corrupção.

Depois de aprender que nação somos todos, que pátria é o sentimento com nossa terra, nossa cultura, nossa língua, nossa gente, nossas tradições, nossos heróis e que tínhamos um território como nenhum no mundo; que nossa cultura era a mais fecunda; que nossa língua era a mais rica, sonora e que se mantinha a mesma em todo o grande território nacional por uma condição única; que nossa gente era generosa, hospitaleira, caridosa, solidária, honesta, trabalhadora como nenhuma outra no universo; que nossas tradições trazidas de nossas origens múltiplas: portugueses, negros, índios, europeus, japoneses presenteando este país com uma diversidade e virtude humanas sem igual; que nossos heróis nos conduziriam para um futuro de paz, de progresso, de felicidade. Depois de tudo isto, constatei que os sentimentos patrióticos se extraviaram pelos desvãos do tempo. Descobri que nossos valores se voltaram contra nós mesmos. Por sermos um povo generoso, hospitaleiro, caridoso, solidário, honesto e trabalhador, nos tornamos alvo fácil dos malandros, dos bandidos, dos déspotas, das quadrilhas que se formaram dentro do Estado brasileiro. Foi assim que se passaram as décadas e até os séculos e hoje, no limiar das despedidas, vejo a água límpida dos sentimentos de pátria, num giro vertiginoso e sujo, escoar pelo ralo dos esgotos, decepcionando os jovens que já encaram uma vida de facilidades e ilegalidades impunes com olhos de naturalidade abjeta. Isto estarrece meu coração apertado.

Vejo, agora, minha pátria, mais miserável que nunca. A injustiça social, gerando movimentos violentos e transgressores; os governos, constituídos de ladrões descarados e quadrilhas organizadas.

À noite, quando o silêncio toma conta do redor de minha família – que tenta descansar depois da luta insana de sobreviver mais um dia – assisto, estarrecido, aos bandidos engravatados desfilarem garbosos, ocupando nosso tempo no horário nobre da mídia, falando apenas de milhões, de bilhões, de trilhões, “honrados” de pertencerem ao crime organizado.

Oh, Pátria amada, idolatrada...

Salve-se quem puder.



(
20 de maio/2006)
CooJornal no 477


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
autor do livro
“Contos de Curitiba” e "Bichos do Poder"
Curitiba - PR
airo@protexto.com.br